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André Rodrigues: “Portugal compara extremamente bem com todos os países congéneres na Europa”

André Rodrigues: “Portugal compara extremamente bem com todos os países congéneres na Europa”

André Rodrigues, Head of Technology da Amazon Web Services para o Sul da Europa, explica porque Portugal foi escolhido como uma das três primeiras 'local zones' na Europa.

André Rodrigues: “Portugal compara extremamente bem com todos os países congéneres na Europa” André Rodrigues, Head of Technology da Amazon Web Services para o Sul da Europa, explica porque Portugal foi escolhido como uma das três primeiras ‘local zones’ na Europa. A Amazon Web Services (AWS), líder mundial do mercado de infraestrutura na nuvem, escolheu Portugal como uma das três primeiras localizações para infraestruturas locais. Para oferecer maior proximidade e satisfazer questões regulatórias. Pelo mercado, mas também pelas vantagens competitivas do país, na geografia e na energia, especialmente nas renováveis. “Acreditamos no futuro de Portugal e é por isso que também temos aqui uma equipa grande para ajudar os nossos clientes a usar cada vez mais a tecnologia da informação”, diz André Rodrigues, Head of Technology da Amazon Web Services para o Sul da Europa e líder da empresa em Portugal. Vivemos um momento fantástico de desenvolvimento tecnológico. A AWS, com os centros de dados, estão no centro de tudo, não só com fornecimento de capacidade, mas também serviços. Esta é uma corrida global, principalmente agora com a inteligência artificial. Como é que vocês se posicionam? O que é que distingue a AWS dos outros players do mercado? A AWS, parece que não, mas este ano está a comemorar o seu 20.o aniversário e às vezes esquecemo-nos de como as coisas evoluíram tanto. Mas se nós olharmos 20 anos para trás, percebemos que a proposta de valor da AWS para o mercado era tão simples como: qualquer organização, independentemente do seu tamanho, independentemente da sua geografia, tendo acesso à internet e com um cartão de crédito, poderia ter acesso a qualquer tipo de tecnologia. Não era preciso ser uma grande empresa para ter acesso, de facto, a tecnologia de ponta. E foi essa a grande mais-valia que a AWS trouxe para o mercado, criando esta cloud de que todos hoje beneficiamos. E foi assente nisso que criou esta possibilidade para todas as empresas poderem usar tecnologia e permitiu também, de alguma forma, que hoje não estejamos preocupados se precisamos de escalar infraestrutura ou não. Podemos confiar na AWS para tratar desse aspeto. Mas o que é que vos distingue? Há outros a oferecerem o mesmo. Qual é o vosso objetivo, como é que se afirmam no mercado? Nós costumamos dizer internamente e, às vezes, também partilhamos com clientes, que não há algoritmo de compressão para a experiência. E o facto de nós termos começado antes, de termos criado esta indústria da cloud, acredito que nos coloca numa posição de pole position, porque, na realidade, vamos sempre um bocadinho à frente. Há algumas coisas que distinguem a AWS. Não indo já à parte tecnológica, diria que tem muito a ver também com a cultura. É uma cultura muito própria, a cultura da Amazon, a cultura da AWS, que coloca sempre o cliente à frente e tentamos trabalhar do cliente para trás, em vez de inovar ou criar só porque sim e depois tentar perceber o que é que se faz com aquilo, como é que monetizamos ou se, de facto, há uma necessidade no mercado. Nós não. Nós procuramos estar sempre muito próximos dos nossos clientes e, depois, inovar em nome deles. Essa é claramente uma das principais [características] diferenciadoras da AWS. Outra, diria que é a profundidade dos nossos serviços. Nós temos mais de 200 serviços, de computação, de armazenamento, de inteligência artificial, de IoT [internet das coisas, na sigla inglesa], de segurança e por aí fora. E não é só esta abrangência de serviços, mas também a profundidade dos mesmos. Para dar um exemplo: só na parte de computação nós temos mais de 850 instâncias diferentes, permitindo que os nossos clientes possam realmente utilizar aquilo que faz mais sentido para eles e para os seus workloads e para os seus serviços. Depois, primamos também pela segurança. Nós percebemos que AWS só existe porque os clientes, as organizações, confiam em nós. Portanto, para nós, a segurança é aquilo a que nós chamamos de job zero, antes de tudo o resto vem o tema da segurança e do compliance. É assente nesta inovação, nesta plataforma tecnológica, mas também de confiança, que nós acreditamos que aportamos valor aos nossos clientes e acabamos por nos diferenciar no mercado. De que dimensão de negócio estamos a falar? Na AWS, por um lado, e no que se possa dizer sobre o negócio em Portugal e na Europa? A AWS no primeiro trimestre, que terminou em março, anunciou resultados superiores a 37,6 mil milhões de dólares [cerca de 33 mil milhões de euros], o que a posiciona, mais ou menos, na ordem dos 150 mil milhões de dólares [131 mil milhões de euros] de run rate [projeção de dados para o ano com base no desempenho já conhecido]. Este quarter [trimestre], nós crescemos 28% year on year [face a igual período do ano passado]. Portanto, é o crescimento acelerado de uma startup, mas com o peso e a incumbência de ser responsável por 150 mil milhões de dólares. E a inteligência artificial só veio acelerar ainda mais. Posso partilhar que nos primeiros três anos de atividade da AWS, ao final de três anos, a AWS faturava na ordem dos 58 milhões de dólares. Os últimos três anos de inteligência artificial para AWS, hoje, representa uma run rate de 15 mil milhões de dólares [13 mil milhões de euros]. Como eu costumo dizer, é uma startup, mas com um peso bastante grande. Falamos muito de centros de dados, vocês estão muito além dos centros de dados. As pessoas entendem-nos como computadores grandes, onde se guardam coisas. É muito mais que isso, têm 200 serviços. Assistimos a uma corrida pela instalação destes centros, mas também, rapidamente, começamos a ver contestação. Mais nos Estados Unidos que têm outra dimensão. Consomem demasiada energia, demasiada água. Vamos ao básico: quais são as vantagens dos centros de dados e o que ganhamos em os termos? A infraestrutura da AWS, pegando no tema dos centros de dados, está dividida em 39 regiões espalhadas pelos cinco continentes onde nós operamos. Só na Europa nós temos nove dessas regiões e cada uma das regiões é constituída por aquilo que nós chamamos availability zones. E cada uma dessas availability zones é um data center ou mais do que um data center, tendo obviamente uma segregação do ponto de vista físico, lógico, de energia de rede e por aí fora. O facto de nós termos esta escala global permite, pegando aqui no exemplo português, que uma startup portuguesa rapidamente, no mesmo dia, ou numa questão de dias ou de horas, consiga prestar serviços no Brasil, consiga prestar serviços na Ásia, consiga prestar serviços nos Estados Unidos, sem ter de comprar hardware, montar hardware, e disponibilizar o serviço aos seus clientes. Outro dado característico que espelha um pouco a escala: nós estamos a falar destas regiões e destas availability zones e depois existe uma rede com mais de nove milhões de quilómetros a interligar tudo isto. Não é algo que se constrói de um dia para o outro. São 20 anos a investir em nome dos nossos clientes, por forma a que, como acabei de dar o exemplo, uma PME pequena em Portugal, uma startup, possa, de facto escalar. E não é só escalar e ir para mercados diferentes, é testar rapidamente, porque não preciso de ficar à espera de hardware e só pago aquilo que consumo. Se eu testar o mercado e tiver sucesso, escalo, mas nem sempre nós somos bem-sucedidos e precisamos de voltar atrás e eu posso reduzir o meu consumo ou posso reduzir a minha fatura. É um bocadinho a analogia, com que costumo explicar às minhas filhas, do interruptor de eletricidade: nós puxamos para cima e a luz aparece e nós consumimos; eu puxo para baixo e a luz desaparece e eu deixo de consumir. Isto dá muita flexibilidade e muita agilidade às empresas a nível mundial, estes data centers espalhados pelo mundo e a cloud, a forma como é possível consumir tecnologia de uma forma tão simples. E vale a pena tê-los mais próximos do que mais longe? Diria que sim, por uma razão simples, há determinados workloads, há determinadas aplicações, que requerem uma latência mais baixa e por isso é importante nós termos os data centers mais perto de nós, porque as aplicações ficam mais perto e assim nós podemos dar o melhor serviço aos nossos clientes finais. Essa é uma das vertentes. A outra vertente para ter os data centers mais próximos tem a ver com temas relacionados com a soberania ou com temas relacionados com ter os dados locais, que são questões muitas vezes regulatórias. Por isso é que AWS faz esta mistura de regiões, availability zones, local zones, que é algo que nós anunciámos recentemente, que também vamos ter aqui em Portugal. E é deste equilíbrio entre ter grandes data centers e data centers mais pequenos, em Portugal ou espalhados pelo mundo, que eu acho que é uma das grandes mais-valias para os nossos clientes. A local zone foi o último grande anúncio que fizeram e é um investimento grande que estão a fazer. Qual é a diferença entre uma local zone e uma zona regional? A infraestrutura da AWS está desenhada com estas regiões, que hoje são 39, e que vamos continuar a expandir. Nestas regiões, que depois têm no mínimo três availabily zones, é onde residem os tais mais de 200 serviços. Uma local zone é uma infraestrutura mais pequena, que não tem estes 200 serviços. Tem serviços na mesma de computação, de armazenamento, inteligência artificial, segurança de rede, mas é um subset mais pequeno, que procura não tanto dar todo o portefólio e todos os serviços, mas sim aproximá-los das populações, das organizações, das empresas que precisam de uma destas duas questões: ou latências mais baixas ou ter os dados locais, questões de soberania. Esta localização vem colmatar essa necessidade, principalmente na Europa, de não abdicar da inovação, mas ao mesmo tempo garantir que os dados estão locais e estão em território português ou europeu. Já tem ideia de quanto vai ser o investimento e de quando é que esta local zone portuguesa vai começar a funcionar, quando é que vai estar operacional? Nós a 16 de janeiro deste ano anunciámos a abertura da região soberana da Europa, na qual três local zones vão estar ligadas, e anunciámos então um investimento na ordem dos 7,8 mil milhões de euros. A local zone em Portugal, ainda a estamos a finalizar, portanto, ainda não temos uma ideia exata de qual é o investimento, nem de quando é que será a data de abertura. Posso garantir que serei uma pessoa muito feliz e poderei partilhar assim que tivermos uma data, mas à data de hoje ainda não temos, de facto, uma data para abrir esta local zone em Portugal. Quando decidiram fazer estas três local zones escolheram Portugal, Bélgica e Países Baixos. Porquê estes países e não outros? O que é que levou a esta escolha? É um conjunto de fatores. Tipicamente, na AWS, 90% daquilo que fazemos, 90% do nosso roadmap, do nosso investimento, tem a ver com aquilo que os nossos clientes nos dizem diretamente. Portanto, se nós decidimos investir em Portugal foi porque vimos que há uma demanda, que há uma procura por parte dos organismos portugueses, por parte das empresas portuguesas, para ter uma infraestrutura local como a local zone. Essa é, garantidamente, uma das senão a principal razão. A segunda é que Portugal também está aqui numa situação ou num ponto geográfico bastante interessante. Não foi só para os Descobrimentos, há 500 anos atrás, mas agora para a corrida tecnológica, para a corrida à inteligência artificial. O facto de nós estarmos aqui na interseção entre os Estados Unidos, a Europa e a África, onde amaram muitos dos cabos transatlânticos, as auto-estradas da informação, também coloca Portugal na pole position para ser um dos pontos mais atrativos. Outra das razões tem a ver também com o acesso que nós temos a energia e, principalmente, a energia renovável, que é algo bastante importante para a Amazon e para AWS. Diria que todos estes fatores fizeram com que nós apostássemos aqui no mercado português. Portugal tem, como o André referiu, condições únicas, não só pela amarração dos cabos, mas também pela questão energética, que é fundamental. Tendo uma visão internacional, tendo a experiência das equipas e dos mercados que gere no sul da Europa, como é que compara Portugal com os outros países em dois aspetos: na capacidade das infraestruturas e na utilização dessas infraestruturas, nomeadamente dos centros de dados? Portugal é visto dentro da AWS, e da dentro da Amazon, de uma forma muito positiva. Começando pelo princípio e voltando ao ponto que eu disse há pouco: tem geograficamente uma posição invejável e ímpar. Do ponto de vista da energia, em Espanha também houve muitos investimentos, agora, no âmbito das renováveis, mas Portugal compara extremamente bem com todos os países congéneres que nós temos aqui na Europa. Para dar um exemplo daquilo que nós estamos também a investir em Portugal e de como é que Portugal compara: nós fizemos um acordo, um PPA, um Private Purchase Agreement para contratar a esmagadora maioria da energia que vai resultar do maior parque eólico no Tâmega, que é um investimento de 350 milhões em que AWS vai ficar com 80% dessa energia, quando no próximo ano estiver disponível. Do ponto de vista de utilização da tecnologia, aquilo a que nós assistimos – e nós fizemos um survey [inquérito] o ano passado e há dois anos –, aquilo que nós vamos medindo é que nós, portugueses, as empresas portuguesas, de uma forma geral, estão em linha com as suas congéneres europeias do ponto de vista da adoção de tecnologia, em específico da inteligência artificial. Há aqui um nicho que é um círculo virtuoso que nós temos com o ecossistema das startups, que na realidade utiliza, se calhar, de uma forma que nós temos de olhar mais para as startups e perceber como é que podemos aprender com elas ou incentivá-las a que usem e adotem a tecnologia. Depois vemos nomeadamente na área de inteligência artificial não só o Estado como as empresas grandes a utilizarem, mas de uma forma por vezes superficial. Ou seja, não para realmente transformar o seu negócio, não realmente para se poderem reinventar e poderem utilizar tudo aquilo que nomeadamente a inteligência artificial nos tem trazido. Mas acreditamos no futuro de Portugal e é por isso que também temos aqui uma equipa grande para ajudar os nossos clientes a usar cada vez mais a tecnologia da informação. Essa capacidade de ajudar os clientes a utilizarem a tecnologia acaba por ser fundamental. Falamos também de formação, que acaba por ser sempre um tema. Continua a haver necessidade de formação a todos os níveis das empresas, da gestão até à base, e de conhecimento do potencial para se aproveitarem. Como é que vocês conseguem trazer isso aos clientes? Apesar de Portugal ter muito talento e de as universidades contribuírem para isso e de a formação que nós temos ser de excelência, a formação não acaba quando as pessoas saem da universidade. É necessário que continue a formação ao longo da vida e que as pessoas percebam que com a inteligência artificial os ciclos são cada vez mais curtos. Portanto, nós, dentro da AWS, apercebemo-nos disso e já há alguns anos trouxemos alguns dos programas de excelência que nós temos no mundo inteiro para Portugal, nomeadamente o AWS Educate, o AWS Academy, que temos uma parceria muito estreita com os politécnicos e com algumas universidades. Ou um programa mais recente que é o AWS Restart, do qual eu gosto bastante, porque como o nome diz Restart, e a ideia, de facto, é ajudar as pessoas a recapacitarem-se, de forma a que tenham competências novas e não aquelas com que foram ensinadas e foram educadas. Alavancando, também em cima dos nossos parceiros, que são o nosso braço armado, nós procuramos, de facto, chegar mais perto das empresas e ajudá-las nesta transformação. Não é fácil, mas acreditamos que o temos feito de uma forma bastante positiva, a maior parte das vezes desafiando as organizações em Portugal. Por vezes, também somos desafiados e dizem-nos temos este problema, como é que a vossa tecnologia nos pode resolver. Por vezes desafiando, por vezes sendo desafiado, mas é assim que nós temos trabalhado aqui no mercado português. Os ciclos estão cada vez mais rápidos, mais curtos. Nós já estamos na fase de democratização do acesso, da generalização do acesso à inteligência artificial ou ainda estamos na fase em quem tem infraestrutura ou quem tem o modelo é que está a ganhar valor? Eu quero acreditar que sim, que nós já estamos nessa fase da democratização, porque a responsabilidade e o mote da AWS nos últimos 20 anos sempre foi democratizar o acesso à tecnologia. E nos últimos três ou quatro anos é o que também temos feito com a inteligência artificial. Desde o início que nós dissemos que nunca acreditávamos que um modelo só fosse capaz de resolver todos os problemas do mundo e fosse a solução para todos os problemas. Porque cada modelo tem a sua especificidade, cada modelo tem a sua latência, o seu custo. Portanto, nós acreditamos, de facto, nessa multiplicidade de modelos. E nós, como AWS, o nosso principal desígnio é dar aos nossos clientes a multiplicidade de modelos que já existem e que vão continuar a existir, cada vez mais, para que eles possam escolher num determinado momento – e hoje é diferente de amanhã e é diferente do que foi ontem – qual é que é o modelo, qual é que é a aplicação que vai realmente resolver os seus problemas de negócio da forma mais efetiva. Olhando para o futuro, o que é que podemos esperar? Sem dúvida, a democratização do acesso. No caso dos centros de dados, vão agigantar-se? Nós sabemos que a concentração é mais eficiente. Vão agigantar-se, concentrar-se ou descentralizar-se por causa da latência, com módulos mais pequenos, mais próximos do cliente. Que cenários é que vocês equacionam para o vosso futuro e para o futuro do mercado? Eu acho que terá de ser um equilíbrio entre ambas estas soluções. Porque os data centers e os data centers cada vez maiores continuam a fazer sentido por uma questão de economia de escala. Por uma questão de serem mais eficientes, por uma questão de consumirem menos eletricidade, porque os algoritmos de inteligência artificial beneficiam de ser treinados juntos e não de forma dispersa. Portanto, centros dados cada vez mais centros dados, cada vez mais regiões do lado da AWS e data centers maiores. Acredito que sim. Mas, ao mesmo tempo, nós vemos uma necessidade muito grande para temas de inferência da inteligência artificial, e, portanto, a latência a ter aqui um peso importante, e haver uma descentralização. Depois, os temas da soberania, com alguns negócios de alguns setores de atividade a precisarem, de facto, dos seus dados locais, e, portanto, data centers mais pequenos, availability zones, local zones mais próximas dos nossos clientes. E, depois, existe também aqui um outro tema: eu acredito que os modelos tendem a ser cada vez mais eficientes e a serem cada vez mais pequenos e, portanto, também vão poder correr em infraestruturas cada vez mais reduzidas. Mas será que garantidamente um equilíbrio entre entre os dois. Nós falamos aqui da soberania, que passou a ser um elemento central no desenvolvimento do negócio. Não digo há 20 anos, mas se olharmos há 10 anos atrás, a forma como se via a evolução não tinha a questão geopolítica tão presente. Entretanto, o mundo mudou, e desde o pós-pandemia que começou a ter maior peso na forma como se olha para o mercado. Questões não tecnológicas, o tratamento dos dados, a soberania, segurança, a conformidade com legislação específica – no caso europeu, isso é muito evidente – passou a ter mais peso do que só o desenvolvimento tecnológico? Passou a pesar mais no processo ? Diria que sim. Eu diria que uma das tendências que nós vemos no mercado e se excluirmos a inteligência artificial, porque senão abafa tudo o resto e não conseguimos falar de mais nada, porque realmente a velocidade que a inteligência artificial e a absorção do dia a dia, às vezes não nos permite olhar para outros, para outras questões e para outros temas, a soberania é algo que os nossos clientes mencionam como uma preocupação. Mas a soberania, hoje em dia, é um tema complexo. E não é ter os dados locais, isso não é soberania. Vejamos aquilo que aconteceu, por exemplo, na Ucrânia, com a guerra, infelizmente, em que percebemos que a solução não era ter data centers locais. Portanto, ter uma estratégia de continuidade, uma estratégia soberana, vai muito para além de construir muros e acharmos que estamos seguros no nosso quintal. Portanto, é importante percebermos, e os clientes europeus têm percebido que as coisas mudam, e de uma forma global, e têm começado a ter alguma preocupação na forma como arquitetam as suas soluções para garantir, de facto, que estão compliant com o que a regulação exige, mas, ao mesmo tempo, também têm um modelo de continuidade para qualquer eventualidade que possa existir. E não só geopolítica nós vemos casos como os terramotos, que também são um risco. Claro. Ainda olhando para o futuro, mas voltando aos centros de dados. Estamos a ouvir falar de soluções como o espaço, o fundo do mar. No fundo para tentar responder à questão da energia e do uso da água. Isto faz sentido tendo em conta aquelas questões da proximidade, da latência? Vê o setor a caminha para aí? Eu vejo o setor, e em particular a Amazon e a AWS, cada vez mais preocupados e centrados em temas de sustentabilidade. No caso da Amazon, nós assinámos e fomos um dos fundadores do Climate Pledge, antecipando as metas de Paris em 10 anos e, portanto, nós em 2040 queremos ser carbono-neutros e 100% das operações e dos data centers todos da AWS já são operados com energia renovável. Portanto, esse é o primeiro passo. Queremos até 2030 ser water positive, portanto, não consumir mais água do que aquela que devolvemos ao mundo. E 2030 que é já ao virar da esquina. Faltam três ou quatro anos. Nós já estamos a 75%, no ano passado estávamos a 54%, portanto, acreditamos que vamos chegar a 2030 sendo water positive. Respondendo diretamente à pergunta, se vamos ter data centers no mar, se vamos ter data centers no espaço, o que eu posso garantir é que acredito, acredito que sim. Possivelmente nós ainda os possamos ver, mas neste momento, a grande aposta da AWS continua a ser em data centers terrestres, cada vez mais sustentáveis, e acreditamos que nos próximos anos iremos resolver os problemas de sustentabilidade dessa dessa forma. Quais são os principais desafios que vê no desenvolvimento do setor? São estes do arrefecimento, do consumo de energia? São mais tecnológicos, a adaptação à tecnologia? O que me estava a dizer, que os modelos vão tornar-se mais eficientes, se calhar conseguem correr em máquinas mais pequenas. As máquinas serão mais poderosas. Vamos imaginar que vem aí a computação quântica... Vem de certeza ...e vai fazer com que demos outro salto. Quais são os desafios que vê no desenvolvimento do setor? Capacidade de adaptação ou resolução destes problemas? Eu não consigo dissociar um do outro, porque a Amazon anunciou no ano passado um investimento sem precedentes – para a Amazon ou para qualquer outra empresa do mundo – no qual nos comprometemos durante o ano de 2026 a investir 200 mil milhões [de dólares; 175 mil milhões de euros] para criar novos centros de dados, para criar novos chips, para criar satélites de baixa órbita. Tudo isso. Mas nós fazemo-lo porque acreditamos, de facto, que o mundo está numa transformação gigante. Nós não acreditamos que isto é um hype ou é algo a que nós estamos a assistir a um ou dois anos. Nós acreditamos que esta aceleração vai ser cada vez maior e os desafios virão daí, de quem é que vai ter a capacidade para se adaptar a esta transformação, que já não é constante, é hiperacelerada. Os desafios vão vir daí e estamos cá para tentar ajudar os nossos clientes, obviamente, a minimizar e rapidamente ultrapassarem os obstáculos. Eu ainda não sei todos quais serão o Ricardo também não, mas teremos de estar garantidamente nos próximos anos para ver isso.

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