Barcelona fixa limite em 16 milhões de turistas

Barcelona quer travar o crescimento do turismo e já definiu um teto claro: 16 milhões de visitantes por ano. A meta foi assumida por José Antonio Donaire, comissário para o turismo sustentável da cidade, numa entrevista recente ao "New York Times", onde defende uma mudança estrutural no modelo turístico da capital catalã, dizendo "nem mais um".
Barcelona quer travar o crescimento do turismo e já definiu um teto claro: 16 milhões de visitantes por ano. A meta foi assumida por José Antonio Donaire, comissário para o turismo sustentável da cidade, numa entrevista recente ao “New York Times”, onde defende uma mudança estrutural no modelo turístico da capital catalã, dizendo “nem mais um”. “Atualmente, a mensagem da cidade é: nem mais um turista”, afirmou Donaire ao jornal norte-americano The New York Times, explicando que o objetivo não é acabar com o turismo, mas estabilizar o volume de visitantes num nível considerado sustentável. Em 2025, Barcelona recebeu cerca de 15,7 milhões de turistas — número que agora passa a ser visto como o limite máximo desejável. A estratégia surge após anos de pressão sobre a cidade, onde o turismo tem contribuído para o aumento dos preços da habitação, a sobrecarga dos transportes públicos e a descaracterização de bairros históricos. Desde 2017, o município tem implementado medidas progressivas, incluindo a limitação de novos hotéis, a criação de uma taxa turística e a proibição de alojamento local prevista para 2028. Menos quantidade, mais qualidade Segundo Donaire, a prioridade não é reduzir drasticamente o número atual de visitantes, mas alterar o seu perfil. Atualmente, dois terços dos turistas são de lazer, um desequilíbrio que a cidade quer corrigir. “A nossa meta é ter um terço de turismo de negócios, um terço cultural e um terço de lazer”, explicou ao “New York Times”. Para isso, a promoção internacional está a ser redirecionada para experiências culturais e eventos, em vez de turismo massificado. A própria comunicação institucional mudou: o slogan passou de “Visit Barcelona” para “This Is Barcelona”, refletindo uma tentativa de mostrar a identidade local em vez de apenas atrair visitantes. Menos pressão urbana e mais vida local Entre as medidas mais controversas está a intenção de eliminar escalas de cruzeiros de curta duração — visitantes que permanecem apenas algumas horas na cidade. A proposta passa por aumentar significativamente as taxas até tornar essas paragens economicamente inviáveis. Ao mesmo tempo, a cidade quer recuperar espaços emblemáticos para os residentes. Um dos exemplos é o mercado da Boqueria, que, segundo Donaire, deixou de servir os habitantes locais e passou a estar dominado por produtos direcionados a turistas. “O mercado tem de continuar a ser um mercado”, afirmou, sublinhando que estão a ser criados incentivos para que os comerciantes voltem a vender produtos essenciais e não apenas comida pronta. Outro foco é a requalificação de zonas como Las Ramblas, onde o município pretende reduzir negócios orientados exclusivamente para turistas e incentivar o regresso dos moradores. Estudos indicam que muitos habitantes deixaram de frequentar esta área por já não a considerarem parte do seu quotidiano. Turistas a financiar o controlo do turismo Apesar das restrições, o turismo continua a ser vital para a economia local, representando cerca de 13% das receitas da cidade. Ainda assim, Donaire defende uma hierarquia clara de prioridades. “O direito dos cidadãos a viver na cidade está acima de tudo”, disse ao New York Times. A taxa turística, acrescenta, permitirá financiar serviços públicos e iniciativas de reequilíbrio urbano, numa lógica em que os próprios visitantes ajudam a mitigar o impacto da sua presença. A estratégia de Barcelona insere-se numa tendência crescente entre cidades europeias que enfrentam o fenómeno do overtourism. No entanto, a definição explícita de um limite máximo de visitantes coloca a capital catalã na linha da frente de um novo modelo de gestão turística — mais restritivo, mas focado na sustentabilidade e na qualidade de vida urbana. A mensagem é clara: Barcelona continua aberta ao mundo, mas dentro de limites bem definidos.
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