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Cafés reinventados e mais complexos economicamente

Cafés reinventados e mais complexos economicamente

A economia capixaba teve seus fundamentos forjados na cultura do café. Desde meados do século XIX até a década de 1960, o café manteve sua hegemonia. Nessa trajetória, não apenas modelou a economia, mas também a ocupação territorial, a formação da sociedade capixaba e sua cultura, além da política. No entanto, essa trajetória de mais [...]

A economia capixaba teve seus fundamentos forjados na cultura do café. Desde meados do século XIX até a década de 1960, o café manteve sua hegemonia. Nessa trajetória, não apenas modelou a economia, mas também a ocupação territorial, a formação da sociedade capixaba e sua cultura, além da política. No entanto, essa trajetória de mais de cem anos foi permeada de armadilhas e tropeços, sem que rupturas mais profundas produzissem forças suficientes para provocar mudanças de rumo na economia. Tanto é verdade que o café chegou à década de 1960 respondendo por cerca de 80% da produção agropecuária, enquanto a agropecuária, por sua vez, representava mais de 50% do PIB estadual. É importante ressaltar que, durante boa parte desses mais de cem anos, o café capixaba sempre foi visto como periférico no contexto nacional e, mais ainda, no internacional. Tanto é verdade que, na crise da década de 1930, provocada pela derrocada da Bolsa de Nova York e agravada, posteriormente, pela Segunda Guerra Mundial, foram queimadas milhares de sacas do produto no Porto de Vitória, por determinação do governo federal. Segundo relatos atribuídos ao então governador Punaro Bley, cerca de 45% da produção estadual teria sido incinerada. Baque ainda maior sobre o setor cafeeiro capixaba ocorreu na década de 1960, com a política de erradicação de cafezais. Estima-se que aproximadamente 157 mil hectares tenham sido erradicados no Espírito Santo. O processo atingiu uma parcela excepcionalmente elevada da cafeicultura estadual, com estimativas que chegam a cerca de metade ou mais da área e dos cafeeiros existentes, dependendo da base de cálculo utilizada. Foi uma intensidade muito superior à observada em outros importantes estados produtores, como São Paulo (28%) e Paraná (26%). Uma demonstração, também, da posição relativamente periférica ocupada pelo café capixaba no contexto nacional. O café do Espírito Santo era então frequentemente associado à baixa qualidade. Meio século depois, entretanto, quando observamos a pujança alcançada pelos cafés capixabas em produção, produtividade, incorporação de tecnologias e conhecimentos, sofisticação e reconhecimento, vêm à tona as dimensões e a profundidade das mudanças ocorridas. Em verdade, tivemos, ao longo dos últimos cinquenta anos, um processo intenso e abrangente de reinvenção. E aquilo que antes reconhecíamos simplesmente como café transformou-se em cafés , no plural. Hoje temos duas importantes expressões de excelência: o arábica e o conilon. O segundo, antes pouco valorizado e praticamente desconhecido fora de determinados mercados, tornou-se, em sua trajetória de desenvolvimento tecnológico, uma espécie de invenção capixaba. O conilon — uma variedade de Coffea canephora — existe em diversos países, mas foi no Espírito Santo que um extraordinário processo de pesquisa, seleção, melhoramento genético e propagação clonal lhe conferiu características de produtividade e qualidade que transformaram a cafeicultura estadual. É aqui que vale um registro especial. A história da clonagem do conilon tem uma conexão particularmente interessante com a indústria de celulose capixaba. Em 1983, técnicos ligados à pesquisa cafeeira conheceram o sistema de multiplicação clonal de eucalipto desenvolvido pela então Aracruz Celulose e identificaram a possibilidade de adaptar aquele conhecimento à produção de mudas de café conilon. A partir daí, instituições de pesquisa capixabas, especialmente a então EMCAPA – hoje INCAPER, desenvolveram e aperfeiçoaram a tecnologia, que ganhou escala com a produção de mudas clonais em meados da década de 1980. Trata-se de um caso singular de circulação de conhecimento entre setores econômicos distintos: uma tecnologia desenvolvida para a silvicultura ajudou a inspirar uma inovação que posteriormente transformaria a cafeicultura. É um exemplo particularmente expressivo de como conhecimento, pesquisa e capacidade de adaptação tecnológica podem atravessar fronteiras entre cadeias produtivas. O resultado foi extraordinário. O Espírito Santo tornou-se referência mundial na produção de conilon, combinando seleção genética, clonagem, manejo, irrigação, mecanização, organização dos produtores e crescente incorporação de conhecimento. Níveis alcançados níveis de produtividade estão entre os mais elevados do mundo:55 sacas por hectare. Não surpreende, assim, a expansão recente dos investimentos na industrialização do café. Somente em Linhares, são estimados investimentos da ordem de R$ 1,2 bilhão em projetos relacionados ao processamento e à industrialização do produto, alguns já realizados, como as plantas da Olam/Ofi, da DM Brasil, especializada em café descafeinado, da Cacique e de outras empresas. Em síntese, os cafés capixabas estão ganhando complexidade econômica . E isso não ocorre apenas pelo aumento da produção ou da produtividade, mas principalmente pelo adensamento da cadeia produtiva, com o fortalecimento dos elos a jusante, maior processamento industrial e crescente agregação de valor. O que nasceu como uma economia fortemente dependente da produção primária de um único produto transformou-se, ao longo de algumas décadas, em um conjunto de cadeias cafeeiras mais diversificadas, tecnificadas e integradas à indústria. De um café, passamos a ter cafés. E, por trás deles, uma economia progressivamente mais complexa.

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