Candidatos usam 'deepfakes' em entrevistas de emprego on-line e levam empresas a adotar até biometria

Os empregadores não estão mais apenas analisando currículos. Agora, eles verificam a identidade dos candidatos ao longo de todo o processo seletivo por meio de escaneamentos biométricos do rosto, análise do histórico de e-mails e até da inspeção do ambiente ao fundo durante entrevistas realizadas pelo Zoom. Matéria exclusiva para assinantes. Para ter acesso completo, acesse o link da matéria e faça o seu cadastro.
Candidatos usam 'deepfakes' em entrevistas de emprego on-line e levam empresas a adotar até biometria RH fez recrutamento por vídeo e, no primeiro dia de trabalho, apareceu pessoa completamente diferente. Em outro caso, trabalhador morava em país diferente do declarado Os empregadores não estão mais apenas analisando currículos. Agora, eles verificam a identidade dos candidatos ao longo de todo o processo seletivo por meio de escaneamentos biométricos do rosto, análise do histórico de e-mails e até da inspeção do ambiente ao fundo durante entrevistas realizadas pelo Zoom. - Mais habilidade: China lança plano de 5 anos para incorporar IA como competência de ensino em todas as escolas do país - Quais são as profissões mais bem pagas no Brasil? Ranking interativo revela ganhos com salário, bônus e verbas extras Recrutadores afirmam que essa é a forma encontrada para lidar com a enxurrada de candidaturas exageradas ou fraudulentas. Mais de um terço dos cerca de 1.230 recrutadores e gestores de contratação entrevistados atualmente dedica metade da semana de trabalho à triagem de inscrições consideradas "spam" ou de baixa qualidade, muitas delas geradas por inteligência artificial, segundo a empresa de software para recrutamento Greenhouse. As empresas também estão preocupadas com candidatos que utilizam identidades roubadas ou fabricadas para aumentar suas chances de conseguir uma vaga. As preocupações não são meramente teóricas. Hiten Sheth, analista da Gartner, afirma que seus clientes já identificaram candidatos utilizando deepfakes para se passar por outras pessoas durante entrevistas em vídeo. Em um dos casos, um recrutador entrevistou uma pessoa, mas outra completamente diferente apareceu no primeiro dia de trabalho. Em outro episódio, uma empresa contratou um funcionário remoto acreditando que ele estivesse baseado na América do Norte, apenas para descobrir posteriormente que ele vivia em outro continente. Casos como esses estão se tornando frequentes a ponto de a Gartner estimar que, até 2028, uma em cada quatro candidaturas recebidas pelas empresas será fraudulenta. — Tecnologias que se baseiam em sistemas de cibersegurança amplamente testados ao longo de décadas, usados em locais como aeroportos, processos eleitorais e aplicações militares e governamentais, agora estão sendo aplicadas à tarefa cotidiana de se candidatar a um emprego — afirmou Daniel Chait, diretor-presidente da Greenhouse. — Mas, nesse contexto, isso acaba sendo bastante simples de implementar, porque a tecnologia exige pouco mais do que tirar uma selfie com o celular. O custo de permitir que candidatos fraudulentos passem pelo processo seletivo pode ser elevado. Durante décadas, as empresas compartilharam rotineiramente informações sobre suas equipes e seus fluxos de trabalho com candidatos antes mesmo de solicitar documentos de identificação ou realizar verificações de antecedentes. Cerca de 23% das empresas americanas entrevistadas pela Checkr, fornecedora de serviços de verificação de antecedentes, afirmaram que fraudes em processos de contratação lhes causaram prejuízos superiores a US$ 50 mil no último ano, em razão de atrasos em projetos, problemas de conformidade regulatória e custos para substituir funcionários contratados de forma indevida. Para 10% dos entrevistados, as perdas ultrapassaram US$ 100 mil. Susan Dietrich, proprietária da empresa de recrutamento TOPS Staffing, sediada em Pittsburgh, afirma que agora utiliza uma combinação de ferramentas de inteligência artificial e entrevistas por telefone para verificar a identidade dos candidatos e confirmar as informações apresentadas por eles. Segundo ela, alguns candidatos alegaram ter acumulado anos de experiência profissional nos poucos meses transcorridos desde a última vez em que haviam se candidatado a uma vaga por meio de sua empresa. Outros incluíram habilidades em seus currículos sobre as quais demonstraram não saber absolutamente nada durante as entrevistas por telefone. Após uma avaliação criteriosa, a equipe de Susan Dietrich envia aos gestores de contratação um resumo do que conseguiu verificar sobre cada candidato. Esse processo adicional de checagem "está consumindo muito tempo", afirmou ela. A adoção de novas medidas de verificação logo nas primeiras etapas do recrutamento está impulsionando os negócios de empresas especializadas em verificação de identidade, como a CLEAR, que autentica candidatos por meio de documentos com foto e registros públicos para recrutadores. Conhecida principalmente por seu serviço que permite aos passageiros agilizar a passagem pelos controles de segurança em aeroportos, a CLEAR expandiu suas plataformas digitais no ano passado para ajudar clientes — desde pequenas até grandes empresas — a identificar candidatos potencialmente fraudulentos. — Não criamos a empresa para resolver esse problema — disse Brett Romanoff, vice-presidente executivo da CLEAR1, divisão de identidade digital da companhia. Mas, depois que alguns clientes passaram a utilizar o serviço para verificar a identidade de funcionários remotos já contratados, a CLEAR começou a empregar seus sistemas de reconhecimento biométrico facial também para validar candidatos durante os processos seletivos. Na Persona, outra empresa especializada em verificação de identidade, a confirmação da identidade de candidatos a emprego tornou-se um dos serviços que mais crescem dentro da companhia, segundo seu diretor-presidente, Rick Song. A plataforma de verificação da Persona consegue detectar se um candidato está utilizando um endereço de e-mail criado recentemente ou se o relógio do computador está configurado para um fuso horário diferente daquele em que a pessoa deveria estar. O sistema também identifica quando alguém acessa a plataforma por meio de uma rede virtual privada (VPN) para ocultar sua localização ou quando o endereço IP do candidato "salta" entre diferentes regiões do mundo em um ritmo incompatível com o deslocamento físico de uma pessoa. Em um caso recente, um cliente da Persona descobriu que um candidato estava se passando por um funcionário da Coinbase, utilizando informações copiadas do perfil verificado desse profissional no LinkedIn, afirmou Song. Essas etapas adicionais de verificação utilizam sinais captados a partir do dispositivo usado pelo candidato para acessar o sistema e dos metadados gerados durante o envio da candidatura. Em muitos casos, isso é feito sem qualquer ação por parte do candidato, representando uma mudança em relação às verificações tradicionais de antecedentes, que normalmente exigem o fornecimento de informações pessoais básicas e a assinatura de formulários de consentimento. — As verificações de antecedentes são, por natureza, voltadas para o passado. O verdadeiro risco é que a pessoa sequer seja quem afirma ser — ressalta Song. Durante uma conferência para profissionais de recursos humanos promovida no mês passado pela SHRM, recrutadores relataram que estão "investigando" candidatos com ferramentas de triagem biométrica durante entrevistas virtuais e rastreando endereços IP muito antes da etapa em que, tradicionalmente, seriam realizadas verificações de antecedentes. — Isso quase parece algo saído de um romance de espionagem — afirmou Stephen Dwyer, presidente da American Staffing Association, entidade que representa o setor de recrutamento e seleção. Dwyer vem treinando recrutadores das empresas associadas à entidade para adotar uma série de medidas destinadas a garantir que os candidatos sejam realmente quem dizem ser — e que estejam onde afirmam estar. Uma das estratégias consiste em pedir aos entrevistados que apontem a webcam para uma tomada elétrica próxima, como forma de comprovar que estão nos Estados Unidos. O aumento das candidaturas fraudulentas ocorre em um momento em que as contratações desaceleraram e a busca por emprego está mais demorada. De acordo com dados do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos, o trabalhador desempregado passa, em média, 11 semanas procurando uma vaga, ante 10 semanas no mesmo período do ano anterior. Diante desse cenário, alguns candidatos têm recorrido a medidas extremas, como assumir a identidade de outras pessoas ou utilizar chatbots para fraudar entrevistas de emprego. Ao mesmo tempo, os empregadores enfrentam ameaças ainda mais graves. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos informou no ano passado que agentes da Coreia do Norte conseguiram se infiltrar em mais de 100 empresas americanas ao induzi-las a contratá-los para vagas remotas na área de tecnologia da informação. Segundo documentos judiciais, NBCUniversal, Nike e Boeing contrataram cidadãos norte-coreanos que utilizaram documentos de identidade falsos e currículos fraudulentos para se passar por trabalhadores americanos. NBCUniversal, Nike e Boeing não responderam aos pedidos de comentário. A proliferação de informações falsificadas é "uma das maiores ameaças que enfrentamos", afirmou Ernest Stephens, gerente de aquisição de talentos da Seattle Public Utilities. Segundo ele, isso está obrigando a empresa a promover "muitas mudanças" em seu processo de contratação. Stephens se recusou a fornecer mais detalhes, alegando preocupações com a segurança por se tratar de uma concessionária de serviços públicos. Mais de 40% dos empregadores que contratam trabalhadores temporários já utilizam algum tipo de software de verificação de identidade para analisar candidatos, de acordo com a primeira pesquisa do gênero realizada pela Staffing Industry Analysts. O levantamento reuniu respostas de mais de 120 empresas. A instituição financeira privada Kiavi, por exemplo, exige que candidatos a vagas de emprego passem por um processo de "validação biométrica e do dispositivo utilizado para confirmar a identidade e comprovar que a pessoa está realmente presente", segundo um anúncio de recrutamento publicado pela empresa. A Equinix., gigante do setor de data centers, solicita que os candidatos apresentem um documento oficial de identidade com foto no início das entrevistas por vídeo e proíbe o uso de fundos virtuais durante as chamadas. Há sete meses, a empresa do setor imobiliário PLACE passou a exigir que candidatos confirmem sua identidade por meio da plataforma da CLEAR, utilizando um documento oficial com foto e uma selfie. Segundo Holly Priestner, diretora de recursos humanos da PLACE, o sistema sinaliza diariamente centenas de candidaturas consideradas potencialmente suspeitas. — Tivemos que aprender algumas lições da maneira mais difícil — afirmou Priestner.
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