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Crítica | Em curtíssima temporada, musical ‘tick, tick... Boom!’ encontra sucesso na simplicidade

Crítica | Em curtíssima temporada, musical ‘tick, tick... Boom!’ encontra sucesso na simplicidade

Poucas obras retratam com tanta honestidade as dúvidas, as angústias e as esperanças de quem decide perseguir um sonho artístico quanto ‘tick, tick... BOOM!’. Escrita por Jonathan Larson, criador do premiado musical ‘Rent’, a produção fez sua estreia na Off-Broadway em 2001 e se tornou uma das produções mais elogiadas do ano e do circuito teatral – conquistando [...] A matéria foi vista no Crítica | Em curtíssima temporada, musical ‘tick, tick... Boom!’ encontra sucesso na simplicidade

Poucas obras retratam com tanta honestidade as dúvidas, as angústias e as esperanças de quem decide perseguir um sonho artístico quanto ‘tick, tick... BOOM!’. Escrita por Jonathan Larson, criador do premiado musical ‘Rent’, a produção fez sua estreia na Off-Broadway em 2001 e se tornou uma das produções mais elogiadas do ano e do circuito teatral – conquistando nada menos que sete indicações ao Drama Desk Awards (um dos prêmios mais cobiçados desse escopo artístico) e uma elogiada adaptação para os cinemas que estreou vinte anos mais tarde, garantindo a Andrew Garfield o prêmio de Melhor Ator em Comédia ou Musical por sua memorável performance. Agora, o musical chega aos palcos da capital paulista no Teatro Viradalata, em uma curtíssima temporada que se encerra neste próximo domingo, 19 de julho – e que traz toda a essência da obra-prima de Larson aos palcos em um breve espetáculo de pouco mais de cem minutos que, mesmo tropeçando aqui e ali, ainda serve como um lembrete de nunca desistirmos dos nossos sonhos, por mais inalcançáveis que eles pareçam. Dirigido pelo trio formado por Luiza Lewicki, Julia Varga e Marcela Pires, o projeto nos convida a uma viagem no tempo, de volta para os anos 1990, mas se apoia em uma reflexão intergeracional que se estende sua importância mesmo nos dias de hoje – abrangendo uma singela narrativa que não tenta ser mais do que consegue, por assim dizer. A trama é centrada em Jon (Matheus Boa), um jovem compositor que, às vésperas de completar trinta anos, percebeu que todos os planos que tinha na vida não saíram como ele desejava. Apesar de manter uma boa relação com a namorada, Susan (Camille Dutra) e com o melhor amigo, Michael (Mariana Ramirez), seu sonho de emplacar um musical de grande sucesso na Broadway ainda não foi conquistado – e, considerando o advento da globalização na última década do século XX, o tempo está passando em um piscar de olhos, deixando-o para trás como uma lembrança evasiva e efêmera. Mergulhado em um interminável trabalho, Jon percebe que está dentro de uma espiral que começa a impactar seu relacionamento tanto com Susan, que adentra uma fase nova de sua vida e percebe que, às vezes, decisões difíceis devem ser tomadas, quanto com Michael, que abandonou sua carreira como ator para dominar o mundo do marketing e se ver diante de um futuro muito confortável e promissor. Jon, por sua vez, se vê num labirinto sem saída, morando no mesmo apartamento pequeno e com goteiras de sempre, conforme tenta emplacar sua mais nova criação – ansiando por uma leitura aberta que pode determinar os próximos passos de uma carreira que não engrenou. Toda a estrutura narrativa é bastante conhecida e parte de um princípio básico não apenas do cenário teatral, mas da indústria do entretenimento como um todo – como vimos, por exemplo, no vencedor do Oscar ‘La La Land’, em ‘O Diabo Veste Prada’ e até mesmo na recente sitcom ‘Inapropriados para o Trabalho’. É claro que a peça de Larson estreou no começo do século, mas é interessante ver como o enredo e o mandatório coming-of-age dos personagens pode ser traçado em uma linha anacrônico, nos relembrando de que nunca é tarde para apostarmos nossas esperanças no que, de fato, nos fará feliz. E, como fica muito claro, a ideia de felicidade é subjetiva e individual a cada um – seja na complacência de Susan em entender o que deve fazer para que ela possa se reencontrar, na necessidade de Michael em viver ao máximo perante uma dura realidade, ou no turbilhão de emoções que Jon enfrenta todo dia em busca de alcançá-la. Considerando o restrito espaço do Teatro Viradalata, a montagem de Lewicki, Varga e Pires encontra sucesso ao nos levar de volta para os anos 1990 com um design de produção simples, mas eficaz, com objetos que auxiliam na construção de todo o desespero em que Jon está inserido – por mais que, à prima vista, a escolha seja apenas estética. Nesse tocante, o cenário se torna parte ativa da narrativa e garante sólidas atuações de Boa e Dutra, que se mantém firmes em quase toda a produção, deslizando em algumas cenas mais dramáticas, mas sem perder o fôlego. Porém, é Montez quem rouba os holofotes ao, transmutando-se em vários personagens menores, saber dosar drama e comédia de maneira exemplar. ‘tick, tick... Boom!’ pode não funcionar em tudo que propõe nos entregar, mas mesmo assim nos deixa satisfeitos pela honestidade com que traz tudo à tona e por se apoiar na praticidade em vez de dar um passo maior que a perna – permitindo que nos relacionemos com cada um dos personagens em níveis diferentes e que nos trazem um bem-vindo esclarecimento.

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