De "Tapa Tapa" a "Se Eu Morasse Aqui Pertinho", Guga Meyra celebra 13 anos de carreira e nova fase no pagode

Guga Meyra, aos 26 anos, se destaca na cena baiana do pagode. Influenciado pela herança familiar, ele conquistou espaço no cenário musical. Sucesso viral no Carnaval de Salvador solidifica sua trajetória como compositor e intérprete.
Com apenas 26 anos, mas carregando a bagagem de um "novo velho", Guga Meyra tem consolidado seu nome na cena baiana. De compositor requisitado por estrelas como Anitta e Léo Santana a intérprete de hits que dominam as redes sociais, o artista revela como a herança familiar e o trabalho duro pavimentaram seu caminho no pagode. Nascido em um ambiente musical, Guga viu de perto a rotina de grandes ídolos do Axé por meio do trabalho de seu pai, que é preparador físico de artistas, e, aos 13 anos, decidiu que seu lugar também era nos palcos. Após um período de imersão na composição durante a pandemia, em que emplacou hits nacionais, ele agora colhe os frutos de parcerias de peso e momentos virais no Carnaval de Salvador. No bate-papo com o Bahia Notícias, Guga relembrou o início precoce, a importância de mentores como Alexandre Peixe e a emoção de ver seu trabalho ganhar o mundo. Me fala sobre o seu começo enquanto artista. Você já falou que começou bem novo, com 13 anos. Você já cantava profissionalmente? Na realidade, eu costumo dizer que a música está comigo desde que eu nasci, né? Porque eu venho de uma família em que meu avô era músico, meus tios eram músicos. Então, o lance do canto, dos instrumentos, já vem comigo realmente desde quando eu nasci. Mas, profissionalmente, eu comecei aos 13 anos. Falei para meu pai: "Pai, meu negócio é cantar, é a música. Eu quero isso para minha vida”. Meu pai sempre me apoiou muito. E de lá para cá foi quando eu comecei a cantar na noite e tudo mais, a compor para outros artistas... A trabalhar com a música de uma maneira mais ampla, até não só cantando, mas compondo. Passei por muitos lugares, tive muitas experiências que marcaram minha carreira. Acho que a relação com a música é um dom que vem com a gente quando a gente nasce. Então, não me vejo fazendo outra coisa a não ser cantar. Sou muito feliz, muito realizado. E a nossa terra, ela puxa muito isso também, né? A gente vem de um lugar onde as pessoas já nascem batucando, batendo palma, fazendo samba na rua. O meu começo foi muito novo e acho que isso conseguiu me trazer, de certa forma, algumas experiências que hoje me ajudam muito. Meu sócio, meu empresário, fala que eu sou um "novo velho". Que, apesar de eu ter 26 anos, eu já tenho aí 13 anos de carreira. Então, praticamente é metade da minha vida trabalhando. E eu tenho muito orgulho disso. E você falou sobre seu pai. Ele é preparador físico de cantores para trio elétrico, para o carnaval. Então você viveu esse Carnaval desde pequeno? Na realidade, na época do axé em alta, meu pai preparava muitos artistas. Meu pai foi preparador de Ivete Sangalo, de Tatau, de Tuca Fernandes, de Margareth Menezes. E, como nessa época os shows eram micaretas, que eram verdadeiras maratonas para os cantores — porque fazer um trio elétrico... às vezes o trio quebra no meio do caminho, aí o cara fica lá cantando não sei quantas horas —, isso exige um preparo físico realmente diferenciado para as pessoas e para os artistas. Até os músicos também procuravam muito o meu pai, percussionista, baterista, porque, para você segurar a onda ali no trio, ainda mais aquela pulsação do axé durante 6, 8 horas, não é para qualquer um. Então a galera procurava muito ele para treinar, e o ciclo de amizade dele girou muito em torno disso. E eu ficava inserido nesse meio. Ele sempre me levava para as confraternizações, e a galera tocava e me incentivava a cantar. Jorge Zarat, que é um grande compositor da música baiana, foi um dos caras que me deu régua e compasso. Tenison Del Rey, o próprio Alexandre Peixe, eram pessoas que estavam sempre presentes nessas resenhas, e eu ficava assim, de espectador, mas sonhando em estar ali e aprendendo um pouquinho. Então eles me davam violão, me davam cavaquinho: "aprende aí, faz assim, faz assado”. E nessa eu fui me desenvolvendo, fui aprendendo e acho que isso incentivou muito a minha vontade em querer trabalhar com isso. Esse background, então, ajudou bastante, moldou o seu caminho. E eu queria falar um pouco também sobre a sua carreira como compositor, porque você, antes de ser muito conhecido como cantor, fazia muitas composições: para Léo Santana, para Anitta, para Xand Avião... Como funcionava seu método de fazer essas músicas? Eu sempre gostei muito de compor, mas inicialmente eu não compunha de uma maneira comercial, para vender para outros artistas. Eu compunha mais para mim, para o meu projeto. Quando eu queria gravar um álbum, CD ou alguma música, eu sentava para escrever. E, quando as coisas fecharam junto com a pandemia, que deu aquele lockdown, a gente não podia fazer show. Então, isso restringiu muito a forma dos artistas, de uma maneira geral, de conseguirem ganhar uma grana para realmente sobreviver. E foi aí que eu pensei: "Caramba, eu vou me dedicar mais à composição para que isso vire para mim uma fonte de renda”. Foi num momento muito especial, porque eu tinha acabado de ser gravado por Léo [Santana]. Foi o primeiro artista grande que me gravou. Eu ainda era muito novo, tinha 18 anos e percebi que os compositores que já estavam “macaco velho” no mercado não me davam muita moral, o que é normal. Era muito difícil conseguir furar as bolhas das rodas de composição. Essa música foi o meu primeiro passaporte para conseguir acessar alguns compositores que me ajudaram muito, e o principal deles foi Alexandre Peixe, que já conhecia ali de pequeno. De vez em quando a gente se encontra e acha algumas fotos minhas, com 10 anos de idade, indo ao ensaio dele. Assistia ao ensaio, ficava vidrado. E Peixe hoje é um amigo, irmão, e foi um cara que me botou debaixo do braço e falou assim: "Bora compor comigo". Passamos a pandemia inteira praticamente compondo diariamente, diariamente mesmo. A gente se encontrava de segunda a sexta, 5, 6, 7, 8 horas por dia, às vezes até mais. A gente viajava para compor com outros compositores e, de certa forma, como ele é um cara que já tem muitos hits, me ajudava muito, porque, em qualquer roda que a gente chegasse, ele já era muito respeitado e eu estava com ele. Trazia junto a galera do meio, que me respeitava porque ele me dava essa credibilidade. Foi aí que começaram a entrar alguns repertórios. Léo gravou a gente em mais algumas músicas, Xand Avião gravou uma música na pandemia que caminhou bastante... E aí eu comecei a conhecer outras pessoas também, outros compositores. Comecei a viajar, aí às vezes Peixe falava: "Gugu, essa viagem eu não vou não, vá sozinho". E eu comecei a desenvolver esse relacionamento e fazer mais músicas com outras pessoas. Outros artistas também começaram a me gravar. Foi aí que Ludmila me gravou com Menos É Mais, uma música chamada "Destilando", e Anitta me gravou em um feat (parceria) com MC Livinho. Foi aí que o meu lado compositor foi se desenvolvendo. Eu acho que, para o artista seguir uma carreira de líder de uma banda, de cantor, enfim, é muito importante que ele tenha essa bagagem de composição, sabe, de criação. E culminou no meu melhor momento enquanto compositor, em que minha carreira também caminhou mais. Porque eu acho que eu comecei até a gravar coisas melhores para mim mesmo e as pessoas começaram a gostar mais das minhas coisas, provavelmente porque eu estava amadurecendo enquanto compositor. Acho que é o processo natural. A nossa música está começando a chegar em outros lugares, muito por conta das redes sociais também. Termina ajudando bastante na divulgação. A rede social e o trabalho duro é o nosso lema. Você falou bastante sobre Léo Santana. Vocês lançaram “Se eu morasse aqui pertinho”. Conta um pouco sobre esse processo de gravação. Léo é um cara com o qual já temos uma relação de amizade, mas de quem eu sempre fui muito fã, sempre admirei muito. Não tem como não ser também. Espelhei muito o meu trabalho até hoje em coisas que ele faz, é uma referência. E é um cara que me ajudou muito na música. Essa é a segunda música que a gente grava junto. Um artista como Léo Santana, que grava com a galera nacional, tirar um tempo para gravar comigo, para um menino que estava começando... Ele é um cara diferenciado, muito generoso. A gente já estava tentando gravar algumas coisas juntos. Eu mandava algumas músicas para ele, só que não tinha batido ainda. E “Se eu morasse aqui pertinho” foi uma música que a gente já tinha gravado há um ano, mas de dezembro para cá ela começou a crescer muito nas aulas de dança, nas redes sociais, nos nossos shows. Eu falei: "Caramba, a oportunidade é essa”. Então, eu mandei para ele, ele topou de primeira, ficou super feliz, empolgado. Estamos colhendo os bons frutos aí com essa música. É engraçado porque eu não estou acostumado, mas a gente passa aqui em Salvador em alguns lugares. E em algumas academias, a gente vê o pessoal na aula de Fitdance tocando nossa música. Eu confesso que não consigo normalizar, não estou acostumado. Algumas pessoas na rua já estão me reconhecendo. Quando você, sei lá, está na academia e alguma pessoa te aborda para parabenizar o seu trabalho, falar que te conhece, que te viu num show, te viu numa rede social... Eu acho que é aquela resposta de que o nosso trabalho está alcançando o que a gente espera. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por O GIGANTE (@leosantana) Eu queria falar também sobre outra música que acho que foi muito marcante para sua carreira, "Tapa Tapa", sua parceria com o Lincoln Senna. Eu já vi você falando que ela nasceu de uma forma muito despretensiosa. Como foi esse processo e como você enxerga a importância dessa música para sua carreira? Rapaz, posso falar até que talvez tenha sido a música mais importante na minha carreira. Porque ela foi realmente a primeira música que me levou para lugares que eu nunca tinha ido. A maior vitória foi ter gravado com Lincoln, que é um irmão da vida, assim, para muito além da música. Ele é um cara que mora no meu coração. A gente tem algumas coincidências nas nossas vidas. Lincoln foi líder da banda Duas Medidas durante muitos anos. Eu cantei na Duas Medidas depois que ele saiu. Foi um cara que não emprestou a voz para mim numa música. Ele realmente disse: “irmão, essa música é nossa, nós vamos trabalhar nela juntos”. Ele abraçou o projeto. O cara está à frente de uma banda que é Parangolé, é uma lenda para nossa música. Para a música do Brasil, tem um legado gigantesco. Eu sou um cara que está chegando ainda. Foi realmente um divisor de águas. Você falou sobre ter cantado no Duas Medidas. Como foi essa experiência? Foi uma experiência muito marcante para mim, porque eu acompanhava Duas Medidas enquanto fã. Eu ficava olhando os caras naquele momento, tipo: “caramba”, querendo começar a tocar, e eles eram a banda que já estava despontando aqui na Bahia. Sempre tive aquela imagem de espectador. O convite para entrar na banda veio em um momento muito marcante da minha carreira. Todo mundo tem um momento na vida em que começa a se questionar. Eu estava me questionando sobre faculdade, música, composição. Eu estava tentando entender para onde eu queria realmente direcionar minha vida. E aí esse convite veio nesse momento e eu agarrei. A gente conseguiu fazer um trabalho massa, ainda que curto. Mas rodamos em muitas cidades, isso também levou o meu nome a ser conhecido por pessoas que não me conheciam ainda. Então foi muito, muito importante para mim. Eu não acredito em coincidências. Eu acho que, na nossa vida, tudo tem um propósito. Então, quando eu olho para trás, eu fico pensando: "Caramba, aquilo ali aconteceu por causa disso, né?". Normalmente, tudo que acontece na nossa vida tem algo de bom para você tirar. E você falou que não sabia se seguia na música ou na faculdade, mas você entrou na faculdade, não é? Eu tô lá até hoje. Eu não tô muito presente, mas assim, eu tô lá até hoje. Preciso até organizar isso na minha vida, ainda bem que você me lembrou. Mas, na verdade, eu entrei na faculdade de Direito da UFBA. É uma área que eu gosto muito, principalmente no que diz respeito ao direito autoral. Existem algumas formações que ajudam a pessoa, independentemente da área que ela vai fazer, e Direito é uma delas. Hoje a minha carreira já toma muito do meu tempo e eu confesso que estou ausente na faculdade, não porque eu gostaria, porque realmente é muito difícil de conciliar. Em algum momento da minha vida, eu pretendo terminar. Você já trabalhou com muitos artistas grandes. A gente já citou aqui Anitta, Ludmila, Léo Santana... E eu queria saber se tem algum artista, alguma banda com quem você nunca trabalhou, mas gostaria muito. Tem alguns. Imagina. Principalmente aqui da Bahia. Eu nunca gravei nada com Ivete. Ela é a referência total, a número um. Já tive muitos contatos com ela, mas de gravar uma música junto ainda não aconteceu. Tô jogando aqui para profetizar! Tem alguns artistas também de fora da Bahia, que são de outros gêneros, de quem sempre fui muito fã e acho que, se algum dia eu conseguir gravar alguma música com eles, vai ser uma vitória: Jorge e Mateus, Luan Santana, Henrique e Juliano. Esses caras são gigantes. Eu gosto muito da música sertaneja. Tem muitos nomes, né? Eu poderia citar aqui milhares. Eu queria falar também um pouco sobre o carnaval, porque você, no início desse ano, viralizou. Acho que ficou muito marcado aquele momento do trio em que você encontrou sua namorada no camarote ... Para quem não está entendendo... Porque assim, a gente tem uma sensação de que viralizou, mas muitas pessoas não viram, né? Eu saí de chorão ainda, rapaz. Na realidade, minha família é muito presente no meu trabalho. E todo o carnaval é um momento muito intenso para a gente, porque a gente trabalha muito, se prepara para chegar nesse momento. Desgasta-se muito nesse processo, tanto física quanto emocionalmente. São muitas viagens, muitos shows, muitas noites de sono perdidas. É realmente a nossa Copa do Mundo. Minha família sempre faz questão de estar comigo. Esse ano minha namorada, Maria, não pôde estar comigo no Carnaval. Ela estava trabalhando e foram muitas coisas, até pessoais, que aconteceram nesse período que a gente superou, foi um momento bem difícil. Quando eu estava passando pelo camarote, foi quando eu a vi da varanda do camarote. A gente estava com um trio super bonito, pipoca cheia, ela vendo aquela vitória, porque ela está dentro de casa comigo, acompanhou o processo de “Tapa Tapa”. Chegar ao Carnaval com uma música concorrendo à música do Carnaval nos principais prêmios... Ela viu aquilo ali acontecendo de fato e se emocionou para caramba. Basta eu ver alguém chorando que eu choro junto, ainda mais com tudo o que estava acontecendo. Aí eu me emocionei. O pessoal gosta de uma fofoca e aí viralizou. Eu não costumo expor muito minha vida pessoal, eu sou um cara bem reservado, mas não teve como segurar a emoção. E acho que, se puder viralizar e aparecer de uma maneira como essa aqui, trabalhando, celebrando conquistas com sua família, com as pessoas que você ama, com sua namorada... Eu prefiro. A gente passa muito tempo fora, muito tempo viajando, principalmente no que diz respeito a um relacionamento. Tem a questão do assédio em show, a gente está ali cumprindo um papel de um personagem. Eu faço questão de me posicionar: eu tô namorando, realmente tô namorando, valorizo isso, valorizo essa união genuína, de você querer construir algo. Foi assim que eu fui criado e é assim que eu pretendo seguir minha vida. Um homem apaixonado! E falando um pouquinho sobre essa preparação para o carnaval, você que tem um pai que trabalhou como preparador físico. Como funciona sua rotina? Ele te dá muitas dicas? Você tem rituais? Ele fica no meu pé diariamente. Vai treinar todo dia, é religioso. Isso quando ele não vai comigo para a academia. Mas eu gosto muito de ter esse lifestyle mais saudável. Minha empresária é nutricionista, a esposa dele é nutricionista também. O nosso camarim é engraçado, porque tem alguns camarins, alguns contratantes que olham a lista e falam assim: "Só refrigerante zero, água, cadê o whisky, cadê a bebida?" Eu gosto de beber também, mas não costumo beber no trabalho. A gente tenta manter essa rotina, porque o nosso trabalho já coloca a gente em situações em que é muito difícil a gente segurar a onda. A gente às vezes precisa se alimentar na estrada, não consegue fazer aquela dieta realmente organizada, come o que tem. E afeta a voz também. Perde muito a noite e o principal remédio para a voz é o sono. Então, se a gente não fizer nossa parte, uma hora ou outra [a conta] vai chegar.
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