Dos áudios explosivos às reações. 'Sismo' Proença abala futebol português

O atual presidente da Federação Portuguesa de Futebol é o protagonista de três áudios divulgados, que visam uma conversa mantida há dois anos, quando ainda era líder da Liga Portugal.
Costuma-se dizer que depois da tempestade vem a bonança, mas a verdade é que essa realidade está longe de ser a do futebol português. Depois do caso das alegadas interferências na arbitragem, há uma nova polémica que tem Pedro Proença como protagonista e que tomou conta das redes sociais nas últimas horas. Tudo começou com a divulgação de uns áudios de uma conversa mantida pelo líder da FPF, há dois anos, enquanto ainda era presidente da Liga Portugal. De acordo com a imprensa desportiva nacional, Pedro Proença estaria em campanha junto dos clubes para reunir 'aliados' à sua candidatura à presidência da Federação Portuguesa de Futebol. Uma dessas reuniões aconteceu com representantes do Benfica, entre eles Fernando Seara, então líder da Mesa da Assembleia-Geral dos encarnados, que se presume que tenha estado presente porque, num dos excertos, Proença dirige-se a "Seara". Contudo, Seara não seria o único a estar presente. A imprensa nacional dá conta de que Rui Costa, o chefe de gabinete Nuno Costa, e o chefe de gabinete na altura (Filipe Pais) também estariam nessa reunião. No que diz respeito aos áudios divulgados, os três excertos referem-se a temas distintos e o primeiro deles está relacionado com a qualidade dos árbitros em Portugal. "Os árbitros são fracos, são todos muito fracos. E tu consegues ter três, quatro gajos minimamente competentes: o Artur Soares Dias, o João Pinheiro, metes o tipo do Algarve (Nuno Almeida), e depois metes ali o Godinho ou uma coisa qualquer assim... O resto é tudo muito fraco", pode ouvir-se. Para além da arbitragem, outro dos temas foi José Fontelas Gomes, que era presidente do Conselho de Arbitragem à data. Sobre o dirigente, que acabou por ser nomeado para seu vice-presidente na FPF, Pedro Proença não deixou palavras muito elogiosas. "Aquilo é um produto do Pedro Proença que, a determinada altura, o Tiago Craveiro obrigou a que o gajo fingisse alguma guerra comigo. O Zé (Fontelas Gomes) é o que é. Não estejas à espera do Zé (Fontelas Gomes), um gajo competentíssimo como eu. O Zé (Fontelas Gomes) tem o 12.o ano, pá, é um gajo que nasceu no bairro da lata, fez-se homem no futebol", referiu. O último conteúdo divulgado diz respeito aos processos judiciais e incluiu afirmações mais assertivas por parte do atual líder da FPF, sendo nesse excerto que parece dirigir-se a Fernando Seara. "Queres jogar esse jogo comigo? Então jogamos os dois. Das 32 vezes em que fui chamado à Polícia Judiciária, 27 foram processos do Benfica. Sabes onde é que se faz a instrução dos processos? A instrução dos processos é na Liga. Queres jogar esse jogo comigo? Seara, não brinques comigo, c******", disse. Quem já reagiu e quem se mantém em silêncio? Após a divulgação dos áudios, o Desporto ao Minuto procurou uma reação por parte da FPF, tal como de Fernando Seara, e a resposta foi perentória: "Não comentamos áudios de conversas obtidas de forma ilegal". Até ao momento, a FPF, Liga Portugal, clubes da I Liga e até Pedro Proença não emitiram qualquer reação oficial ao sucedido. Porém, houve quem tenha feito questão reagir à polémica, como foi o caso da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF). Através de um comunicado publicado esta terça-feira, a entidade exigiu esclarecimentos a Pedro Proença com pedidos de "contexto" dos comentários que visam a arbitragem lusa. "A APAF condena de forma inequívoca este tipo de discurso que coloca em causa a competência, a credibilidade e a dignidade de uma classe que trabalha diariamente com enorme profissionalismo. Os árbitros portugueses têm demonstrado, ao longo dos anos, uma capacidade amplamente reconhecida pelas nomeações para as principais provas internacionais, de seleções e de clubes", pode ler-se. "A defesa da honra, da credibilidade e da dignidade da arbitragem portuguesa é um dever da APAF, mas também é uma responsabilidade de todas as instituições do futebol e, principalmente, de todos os seus dirigentes. Os árbitros continuarão a desempenhar a sua missão com independência, rigor, competência e dedicação, mas exigem respeito por tudo aquilo que têm feito em beneficio do prestígio do futebol português", acrescentou. Quem também tomou uma posição pública foi Marco Ferreira, ex-árbitro, que não poupou as palavras a Pedro Proença, acusando-se de liderar uma "organização secreta". "Iniciou-se a queda dos últimos Moicanos... Moicanos - uma organização secreta liderada pelo atual presidente da FPF, na altura Árbitro, onde era tudo discutido e decidido com a APAF. Greves, boicotar cursos de arbitragem, profissionalismo à medida do chefe, tabelas de prémios, etc...", começou por afirmar. "Grupo era constituído só por árbitros internacionais, onde tive a infelicidade de participar alguma vezes, o suficiente para não aceitar fazer parte de seitas para promover o ego do líder e dos seus eternos seguidores. Justiça seja feita, alguns internacionais na altura recusaram fazer parte de uma organização cujo objetivo nunca foi defender a arbitragem nem o futebol português", prosseguiu Marco Ferreira. Por fim, o ex-árbitro lembra que as recompensas que o "eternos seguidores" tiveram foram "cargos na FPF", desde "diretor técnico da arbitragem, assessores de arbitragem e Conselho de Arbitragem". Polémicas sem fim na arbitragem Estes ataques de Pedro Proença à arbitragem portuguesa ganham ainda mais eco numa altura em que o caso Duarte Gomes está a ser investigado no Ministério Público. O antigo árbitro demitiu-se do cargo de Diretor Técnico Nacional de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) no final de junho e deu origem à polémica. Duarte Gomes alegou ter recebido um "conjunto de informações que, pelo seu teor e sensibilidade" lhe suscitaram "preocupações institucionais muito relevantes". Ora, Luciano Gonçalves era o grande visado por alegada interferência nas nomeações de árbitros na I Liga e acabou por ser alvo de um processo de inquérito do Conselho de Justiça. Mais tarde, o caso foi arquivado, mas o Ministério Público confirmou que existe um inquérito a decorrer sobre alegadas interferências no setor da arbitragem do futebol, numa investigação em que é coadjuvado pela Polícia Judiciária.
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