El Niño deve aumentar casos de doenças, e a dengue é só uma delas

Lúcia Helena: El Niño deve aumentar casos de doenças, e a dengue é só uma delas
El Niño deve aumentar casos de doenças, e a dengue é só uma delas Resumo Noutro dia, o pessoal da área de compras do Grupo Fleury, empresa centenária de medicina diagnóstica, bateu na porta do diretor clínico. Queria saber se ele achava necessário adquirir mais kits que de costume para fazer o teste de dengue em seus laboratórios espalhados pelo país. "Temos equipamentos incríveis aqui, menos bola de cristal", devolveu o médico infectologista e patologista clínico, brincalhão como sempre. No entanto, quem o conhece a sério sabe que o professor aposentado da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) é um dos observadores mais argutos de vírus e outros agentes infecciosos, notando pelos laudos de milhões de exames realizados a cada mês no Fleury (sim, na casa de milhões) qualquer mínima diferença que possa apontar com antecedência um surto se aproximando. E, na certa, quem resolveu procurá-lo já tinha ouvido falar de sua preocupação com o El Niño. Ora, o Oceano Pacífico, cujas águas servem de termostato do planeta, já começou a reclamar mais uma vez de calor, liberando-o para a atmosfera. Nesse fenômeno natural, porém intensificado pelo aquecimento global das décadas recentes, o ar quente modifica completamente a circulação dos ventos, desloca nuvens, altera padrões de chuvas e de secas e, no final das contas, dependentes que somos do ambiente, muda o comportamento de toda a natureza. E ela inclui mosquitos. O risco de arboviroses, infecções transmitidas por esses insetos e carrapatos, deverá aumentar no país com o super El Niño, que já nos envia discretos sinais, como dias com picos inesperados de calor neste fim de inverno. O fenômeno climático deverá chegar para valer no Brasil junto com a primavera para só arredar o pé no final do verão. "A lógica diz que teremos uma maior ameaça não só de dengue, mas de zika, chikungunya e febre amarela", explica Celso Granato, citando infecções causadas por vírus transmitidos pelo mosquito Aedes aegypti — o que pode acontecer até com o da febre amarela, quando o flavivírus que a causa sai da floresta e alcança a cidade. O médico do Fleury acrescenta à lista o risco de febre do oropouche. Esta pode ser passada pelo Culinoides paraensis, o popular mosquito-pólvora da região Norte. E um aviso a mais para quem vive no Nordeste ou planeja as férias de verão nas areias do seu litoral: por lá, a tendência é de aumento acima da média de casos de gripe. "Melhor as pessoas colocarem a vacina contra o influenza em dia antes de a estação chegar", pensa o professor. Ou antes de arrumarem as malas. Clima para mosquito não botar defeito Ontem mesmo, 23 de julho, o Ministério da Saúde soltou um alerta para o risco de alta de arboviroses com o avanço do El Niño, recomendando que "estados e municípios intensifiquem as ações de vigilância e controle, com a realização de bloqueios de transmissão nos primeiros casos identificados", diz o comunicado. Baseando-se em projeções da Fiocruz, o governo estima que teremos 1,7 milhão de casos "só" de dengue nos próximos meses. Outros vírus transmitidos por mosquitos nem estão nessa conta. "Fazer previsão sobre qualquer virose é sempre muito delicado", assume Celso Granato. "Quando o Ministério da Saúde previu 4 milhões de casos de dengue em 2024, eu pensei: esse pessoal está louco, porque, quando a gente tem 1,5 milhão de registros, já é muito, estourando a curva de crescimento esperada para essa doença nos meses mais quentes. No entanto, todos nós estávamos errados", assume. Não foram 1,5 milhão, nem 4 milhões de casos em 2024: naquele ano, o Brasil somou 6,6 milhões de diagnósticos de dengue. Já no ano seguinte, quando muita gente ficou aflita aguardando a repetição desse número, a queda nos registros foi de 75%. Para este ano e na virada para 2027, na mesma linha do povo da Fiocruz, o professor Granato prefere a cautela. Ou seja, prefere que todos se preparem para a possibilidade de o El Niño trazer o pior cenário. Segundo o médico, com o aumento da temperatura e das chuvas no Sudeste e no Sul — região onde, antes, o Aedes não aprontava tanto, mas que ganha asas para invadir com as águas de possíveis enchentes —, a vida do mosquito fica muito facilitada. "A combinação de temperaturas mais altas e chuvas faz a fêmea botar mais ovos. Os ovos, por sua vez, eclodem mais cedo", conta. Fato: o tempo de desenvolvimento do ovo até o Aedes adulto cai de dez para cinco dias nessas condições. "Além disso, a fêmea pica mais", continua o infectologista. Sim, e isso porque o metabolismo do mosquito é acelerado pela umidade e pelo calor de lascar. Daí que ele precisa se alimentar do nosso sangue mais vezes. Moral da história: se, por azar, estiver carregando um vírus, irá transmiti-lo para mais pessoas. Aliás, o próprio vírus se desenvolve mais depressa no mosquito em um climão desses. Com outras arboviroses pode acontecer algo parecido. E, com mais uma possibilidade que o El Niño acende ao provocar secas no Norte e no Nordeste, que é a de queimadas, não dá para afastar o risco de doenças emergentes, com os mosquitos avançando para outras regiões, carregando consigo um agente infeccioso ainda desconhecido, com o qual nunca tivemos maior contato. "Nos congressos, a gente vê uma quantidade imensa de novos vírus, presentes nas florestas, que acabam sendo encontrados em estudos com mosquitos", conta o infectologista. Ele garante que não gosta de ser catastrófico. Mas, com aquela calma e naturalidade típicas dos cientistas, chama a atenção para o seguinte: "Todas as epidemias vieram de onde a gente não estava esperando, até mesmo a do HIV, que era um vírus do macaco". Ou seja, se as matas são destruídas por queimadas, sempre cresce o perigo de más surpresas. Ar seco, como o influenza gosta Todo mundo associa a gripe ao frio. Mas isso porque temos mania de ficar em lugares fechados quando a temperatura baixa: a falta de ventilação por causa de janelas fechadas e as aglomerações favorecem a transmissão da doença. No entanto, o que deixa o influenza e qualquer vírus respiratório mais animado, digamos assim, não é tanto o clima gélido, mas o ar mais seco, algo que ele geralmente encontra nas regiões Sul e Sudeste do país durante o inverno. "Mas, no restante do Brasil, a gente tem gripe praticamente o ano inteiro", explica Celso Granato. E, antecipa, o influenza deve aprontar ainda mais com as secas aguardadas junto com o El Niño. Por isso, repete a importância da vacinação contra a gripe como parte dos preparativos para o El Niño. "Aliás, o ideal é que as pessoas com possibilidade de tomar vacina contra a dengue façam isso também", indica. Fuja dos mosquitos! Enquanto o Aedes não for eliminado, de certa maneira estaremos sempre enxugando gelo no que diz respeito às arboviroses. Além de evitar água empoçada em vasos e em outros cantos, na temporada do El Niño, besunte-se de repelente mais do que nunca. "A dica vale especialmente para quem está próximo de matas e se você pretende sair bem no início da manhã ou no finalzinho da tarde", diz Celso Granato. As fêmeas podem não dar sossego um minuto enquanto dura a luz do dia, mas esses são os horários em que mais atacam. Acima de tudo, diante de qualquer sintoma estranho, não postergue buscar ajuda médica. Acredite: se o tempo fica esquisito, as doenças ficam também. Tudo está interligado, da gota d'água aquecida no Pacífico até cada um de nós. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.
This is a summary. Read the full article at the original source.
Read full article at uol
