Em MG, perto de São Paulo, dá pra fazer enoturismo (mas sem bate-volta)

As vinícolas para degustar vinhos em MG, perto de São Paulo (mas sem bate-volta)
Em MG, perto de São Paulo, dá pra fazer enoturismo (mas sem bate-volta) Resumo Na semana passada, corrigi uma falha: depois de quase dez anos, fui visitar uma vinícola da relativamente nova onda de empreendimentos perto, pero no mucho, de São Paulo, onde vivo. Estive em Minas Gerais, mais precisamente na Barbara Eliodora, em São Gonçalo do Sapucaí. A última vez em que fiz algo parecido foi nos primórdios da Guaspari, em Espírito Santo do Pinhal (SP). Na época, as atrações eram poucas, a gente ia na vinícola e depois, no máximo, saía a explorar o bonito entorno rural. Hoje, ouço dizer que o cenário está bem mudado por ali. O meu amigo Vinicius Mesquita, frequentador assíduo, escreve sobre essa cena logo abaixo. A região onde fica a Barbara Eliodora, pelo que entendi, está no meio do caminho entre o Espírito Santo do Pinhal de 2017 e o de agora. Já há algumas atrações, uma ou outra opção de hospedagem —fiquei na pousada Pequeno Grande Hotel (!), uma casa centenária restaurada, com um belo jardim, e recomendo. Aliás, a cidade de Campanha, onde ela fica, antiga, mas não opulenta como Ouro Preto ou Tiradentes, que eu adoro, vale um giro também. E deve melhorar. A própria Barbara Eliodora está investindo na construção de um hotel de luxo em um casarão ainda mais velho, logo em frente à pousada, e outras iniciativas devem começar a pipocar por Campanha e entorno. Esse ainda é um obstáculo para o viajante de São Paulo. Afinal, não é perto como São Roque, de onde é possível voltar no mesmo dia, tendo uma boa alma que não beba para voltar dirigindo (aliás, você já provou os vinhos Philosophia, de lá?). Hospedar-se é necessário, e a estrutura está crescendo, mas ainda não é ideal. Outra vinícola, a Davo, cuja produção se divide entre a região e Ribeirão Branco (SP), também tem um hotel por lá, que não visitei, mas foi bem recomendado. Não tive a oportunidade de explorar muitas opções gastronômicas (soube apenas que a cidade já abrigou uma pizzaria histórica numa garagem, com mesas de lata, com uma adega que dispunha até de uma coleção de Pêra-Manca, para deleite quase exclusivo do proprietário). Mas fui duas vezes ao bom e não muito barato restaurante da própria vinícola e comi bem, num ambiente bacana. A hora de ir é agora: no inverno, o céu é sempre azul, dizem, e as estrelas se exibem despudoradamente à noite. E, pelos próximos dias, ainda dá pra ver alguma colheita, já que toda essa cena só prosperou com o desenvolvimento das técnicas de dupla poda, que força o amadurecimento das uvas para fora dos quentes e úmidos verões locais. Dá pra conhecer outras vinícolas em São Gonçalo e municípios próximos (para padrões mineiros, algum planejamento e o bom e velho telefonema -ou mensagem- são recomendáveis). Ou só para procurar os vinhos. Alguns nomes: Davo, Justimiana, Chrysiana (Três Corações), Maria Maria (Boa Esperança), Stella Valentino (Andradas é Minas, mas já fica mais na rota de Espírito Santo do Pinhal), Casa Geraldo (idem), Alma Gerais (Bom Sucesso), Alma Mineira (Senador José Bento), Primeira Estrada (a pioneira, em Caldas), Artesã (Gonçalves), Lorenzo (Maria da Fé - essa é orgânica e não usa dupla poda). E os vinhos? Os vinhos dessa região se assemelham bastante aos demais de colheita de inverno que são feitos em São Paulo. Ainda existe um predomínio, mas não exclusividade, de syrah e sauvignon blanc, que já se estabeleceram como as mais seguras para o sistema de poda invertida (ou dupla poda). São bons, um pouco caros e, em geral, têm perfil de fruta madura e, nos mais prestigiados, bastante uso de carvalho novo. Para o meu gosto, às vezes a madeira vai para um lado e o vinho pro outro, faltando integração. Não me entenda mal, não sou contra barricas, corpo e madurez, e alguns de meus vinhos favoritos têm tudo isso, mas me peguei apreciando mais os que eram menos pretensiosos. Uma crítica que ouço às vezes é que os vinhos dessa região ainda não têm identidade própria. Se assemelham uns aos outros e também a um certo padrão internacional. Acho a crítica correta, mas injusta: é uma experiência ainda muito nova, e seria difícil que as diferenças geográficas e de estilo do produtor dessa vasta região já tivessem sido decantadas em tão pouco tempo. Vinho é criatividade e tradição. Outra objeção é ao uso de produtos químicos que, até agora, são fundamentais para a poda invertida, como a cianamida (Dormex), proibida em diversos países. O tema é complexo e merece uma avaliação sofisticada demais para o espaço desta newsletter/coluna, mas, a meu ver, a crítica não é infundada. Viajei a convite da Barbara Eliodora, e são os vinhos dela que estão mais presentes na minha memória. Meus favoritos, entre os que provei, foram o vibrante e desavergonhadamente tropical sauvignon blanc 2025, o floral e morangudo Rosé Flor 2025 (que tem um toquinho de abacaxi e banana talvez indesejáveis, mas que, para mim, compuseram bem), o leve syrah Léger 2025, o syrah sauvage 2025 (esse, com leveduras indígenas, é um microlote, mais difícil de encontrar) e o syrah clássico 22. Se o seu paladar aprecia potência e destaque para madeira de qualidade, e o seu bolso permite dispender R$ 485 numa garrafa, seu negócio é o Alvarenga e a linha Gran Reserva, especialmente o "F", que utiliza barricas François Frères. E talvez compará-lo com o "E", que usa os da Ermitage. O jornalista viajou a convite da vinícola Barbara Eliodora. Um roteiro por Espírito Santo do Pinhal A Serra da Mantiqueira, você sabe, é muito grande. Ela está distribuída em três estados do Brasil: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. E nesta longa cadeia montanhosa existe um município chamado Espírito Santo do Pinhal que, há alguns anos, virou um dos epicentros do enoturismo paulista. A região se tornou notável graças à técnica da dupla poda, que, como o próprio nome sugere, impõe às plantas uma poda no verão e outra no inverno. Em linhas gerais, o objetivo aqui é inverter o ciclo da videira, transferindo a colheita dos frutos de melhor qualidade para o inverno, quando o clima é seco e ensolarado e as noites são frias. A vinícola Guaspari, a mais famosa da região, foi a grande responsável por impulsionar esse movimento, com a plantação das primeiras videiras em 2006. Hoje, a área já reúne uma porção de vinícolas. Algumas bem reservadas e pequeninas, outras mais imponentes e dedicadas ao turismo. Foi justamente essa revolução que transformou a cidade em um destino obrigatório para quem gosta de vinho. Além da Guaspari, vou indicar outras três que merecem mais atenção. A primeira é a Floresta, que tem um ótimo restaurante e dois bons vinhos com as castas sauvignon blanc e syrah. O site está bem desatualizado — o que é um problema. Você não vai encontrar no ambiente digital todos os vinhos produzidos pela vinícola. Só mesmo na própria loja. Na InnVernia, você pode fazer a degustação no restaurante ou no wine bar, em meio aos vinhedos, entre quinta e domingo, sempre com reserva antecipada. Existe também uma experiência mais simples: a degustação de balcão, com aproximadamente 30 minutos de duração, sem necessidade de agendamento prévio. Aqui o serviço é por ordem de chegada. Em relação aos vinhos, você não vai se decepcionar. Indico o espumante Domaine, por R$ 150, o fresco clarete de pinot noir Di InnVernia, também por R$ 150, e o chardonnay Reserva Di InnVernia, por R$ 180. Mas você também pode optar pelos vinhos de tannat, outros pinot noir, cabernet sauvignon, sauvignon blanc e, claro, syrah, a queridinha da região. O wine bar da Merum está em uma das mais belas localizações da serra. Por alguns instantes, você terá a sensação de estar diante dos terraços da região do Douro, em Portugal. Destaque para os vinhos Merum Andante viognier e Merum Andante sauvignon blanc. O maior drama de Espírito Santo do Pinhal é o serviço ao turista. Faltam espaços para hospedagem. O melhor de todos, caso você viaje com crianças, é a pousada Famiglia Barthô. Em uma viagem entre adultos, seja em casal ou entre amigos, indico a Casa da Pedra. A vinícola Mirantus também oferece quartos, mas os altos valores da hospedagem não compensam a decepcionante qualidade das refeições servidas. Em tempo: na virada do mês, acontece o festival Turisagro, com bastante vinho, em Espírito Santo do Pinhal. Tem mais informações em @turisagrooficial. (Vinicius Mesquita) SAIDEIRA Gran Floresta Syrah A dupla poda oferece vinhos muito bons e outros absolutamente reprováveis. Diante da magia do discurso sobre os seus encantos, você pode acreditar que todos os vinhos produzidos sob essa técnica são excelentes. Não são. Mas o Gran Floresta Syrah 2022 está do lado certo da história. Além dos 91 pontos no Descorchados 2026 e dos 91 da Decanter em 2025, ele também recebe nossos votos. O maior problema é pagar mais de R$ 250 por ele. (Vinicius Mesquita) Barbara Eliodora Syrah Clássico 2022 Tem muito do que se pode esperar de um syrah do Sudeste brasileiro. Os aninhos já integraram bem os aromas de groselha, amora, jabuticaba, pimenta do reino, canela e cravo. Tem um toque de charcutaria e água de azeitona que costuma ir bem com a casta, apesar de a descrição parecer estranha. Não tem madeira perceptível. Final relativamente longo. Custa R$ 178 no site da vinícola. (Rodrigo Barradas) Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.
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