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Entenda os critérios que separam o jogador recreativo do dependente em bets, segundo psiquiatras

Entenda os critérios que separam o jogador recreativo do dependente em bets, segundo psiquiatras
Source:uol

Psiquiatras explicam critérios que separam dependente em bets de jogador recreativo

Nem todo apostador problemático é, do ponto de vista clínico, um dependente de jogo, defende o psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, responsável pelo Ambulatório de Tratamento de Dependências de Comportamentos do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), da Unifesp. Ele trata jogadores compulsivos há cerca de 30 anos. Vieira Júnior descreve um terceiro perfil, entre o jogador recreativo e o dependente: o "investidor iludido", que acredita ter descoberto um esquema ou estratégia capaz de garantir ganhos com apostas. "Esse cara também cria problemas, também pode ter critérios para um diagnóstico de transtorno de jogo, mas não necessariamente é um dependente", diz. O TST (Tribunal Superior do Trabalho) atualmente discute se as regras aplicadas a casos de alcoolismo também valem para a ludopatia em processos de demissão. O ministro Alexandre Agra Belmonte, coordenador nacional do Programa Trabalho Seguro do TST, resume o desafio. "É preciso diferenciar, com critérios técnicos, o que é um comportamento reprovável e o que é uma condição clínica que exige proteção", disse à Folha. Em súmula consolidada em 2012, o TST estabelece que a demissão de um trabalhador com doença estigmatizante, como o alcoolismo, se presume discriminatória e pode levar à readmissão no emprego. Essa é a regra que uma ala de ministros discute aplicar à ludopatia. Para Vieira Júnior, a comparação com o alcoolismo se sustenta, embora não seja uma equivalência total; no jogo, o cérebro desenvolve a mesma resposta dependente sem que nenhuma substância entre no organismo. "A dependência é uma relação, não é um efeito que uma droga causa em você", afirma. Os dois vícios, contudo, podem estar relacionados. Três em cada quatro jogadores patológicos têm ao menos um diagnóstico psiquiátrico associado, e o álcool é um dos mais comuns, segundo a psiquiatra Lívia Beraldo, do Hospital Sírio-Libanês —a ponto de formar, com o tabagismo, o que ela chama de tríade clássica do jogador. O jogador pode não necessariamente beber imediatamente antes ou durante as apostas, mas o abuso de álcool é comum após uma sessão de jogo, para lidar com a angústia das perdas ou facilitar o sono, diz Beraldo. Para ela, a presença de uma comorbidade é sempre um indicador de maior gravidade do quadro, e um risco nos tratamentos especializados é negligenciar uma condição em favor da outra. A proximidade aparece na farmacologia, afirma a psiquiatra, uma vez que a naltrexona, já aprovada para dependência de álcool, tem se mostrado útil para reduzir a fissura por apostas. O medicamento trata o transtorno do jogo de forma ampla —categoria que inclui as bets, mas não se restringe a elas. A similaridade fez com que o transtorno do jogo fosse incluído, na versão mais recente do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), de 2013, na categoria de dependências, e não mais na de transtornos do controle dos impulsos, em que estão quadros como tricotilomania (arrancar os próprios cabelos) e automutilação, afirma Vieira Júnior. A realocação ocorreu por evidências de semelhança na fenomenologia e na biologia com os transtornos por uso de substâncias, segundo Beraldo. Pessoas com transtorno do jogo relatam desejo ou fissura antes de apostar, de forma parecida com a dependência química, e o jogo costuma reduzir a ansiedade e gerar euforia semelhante à do efeito de substâncias. Em amostras clínicas, cerca de 50% das pessoas com transtorno do jogo relatam abuso de substâncias, e até 63% das que buscam tratamento para o jogo já tiveram, em algum momento da vida, um transtorno por uso de substâncias, acrescenta Beraldo. Estudos de neuroimagem também apontam um circuito neural compartilhado entre os dois quadros, ela diz. O que define a dependência O DSM-5, de 2013, lista nove critérios para o diagnóstico de transtorno do jogo, definido como comportamento "problemático persistente e recorrente", que leva a "sofrimento ou comprometimento clinicamente significativo". O diagnóstico de transtorno do jogo é fechado quando há presença de 4 (ou mais) dos 9 critérios. São eles: - Necessidade de apostar quantias de dinheiro cada vez maiores a fim de atingir a excitação desejada; - Inquietude ou irritabilidade quando tenta reduzir ou interromper o hábito de jogar; - Fazer esforços repetidos e frustrados no sentido de controlar, reduzir ou interromper o hábito de jogar; - Preocupação frequente com o jogo (planejar a próxima quantia a ser apostada e pensar em modos de obter dinheiro para jogar, por exemplo); - Frequentemente jogar quando se sentir angustiado; - Após perder dinheiro no jogo, frequentemente voltar a jogar outro dia para tentar 'recuperar o prejuízo'; - Mentir para esconder a extensão de seu envolvimento com o jogo; - Sofrer prejuízos pessoais, sociais e profissionais (perder um relacionamento significativo, o emprego ou uma oportunidade educacional ou de profissional em razão do jogo); - Depender de outras pessoas para obter dinheiro a fim de saldar dívidas causadas pelo jogo. Na avaliação de Vieira Júnior, três dimensões definem a dependência. A primeira é uma sensação de perda de liberdade: a pessoa se sente compelida a jogar, mesmo percebendo o prejuízo. A segunda é a disfuncionalidade, o dano concreto, no caso do jogo, sobretudo financeiro. A terceira é o que ele chama de empobrecimento existencial: a vida da pessoa vai se reduzindo progressivamente ao ato de jogar, com abandono de outras relações e atividades. Para o psiquiatra, é justamente essa falta de fronteira nítida que torna o diagnóstico difícil nos casos que chegam à Justiça do Trabalho. "Os extremos são sempre fáceis de diagnosticar. Aquilo no meio do caminho é que vai dar mais trabalho para diagnosticar", afirma. Nesses casos, segundo ele, cabe ao perito judicial uma avaliação mais aprofundada para tentar diferenciar indisciplina de patologia. O Ministério da Saúde registrou 6.157 atendimentos presenciais no SUS relacionados a apostas em 2025, quase o dobro dos 3.490 registros de 2024. A pesquisa TIC Domicílios 2025, do Cetic.br, mostrou que cerca de 30 milhões de brasileiros com mais de 10 anos já apostaram online, aproximadamente 1 em cada 5 usuários de internet no país. A prática é mais comum entre homens (25%) do que entre mulheres (14%).

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