EUA repetem hoje na Arábia Saudita o erro atômico cometido no Irã de 1957

Charleaux: EUA repetem hoje na Arábia Saudita o erro atômico cometido no Irã de 1957
EUA repetem hoje na Arábia Saudita o erro atômico cometido no Irã de 1957 Resumo Os Estados Unidos criaram nos anos 1950 um programa chamado Átomos para a Paz ("Atoms for Peace"), com o qual transferiram tecnologia nuclear a países aliados de Washington na Guerra Fria. Um dos países agraciados com urânio e reatores norte-americanos foi o Irã, em 1957. A ideia deu errado, porque, em 1979, o regime monárquico que era amigo de Washington em Teerã foi substituído por uma teocracia xiita inimiga. Mas a reviravolta, que desembocou na guerra em curso hoje, parece não ter sido suficiente para ensinar os norte-americanos, porque eles estão correndo o risco de repetir a história toda, 69 anos depois —desta vez, com a Arábia Saudita. O memorando sobre o novo acordo atômico foi assinado pelos secretários de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, e da Arábia Saudita, o príncipe Abdulaziz bin Salman, e apresentado como uma "parceria multibilionária de várias décadas, que promove diversos objetivos econômicos e estratégicos prioritários, incluindo a não-proliferação nuclear". Por partes: economia, estratégia e não proliferação compõem o tripé do anúncio, então? Economicamente, o sentido do acordo é de fato construir capacidade de geração de energia praticamente ilimitada para uma Arábia Saudita que é hoje a maior exportadora de petróleo, produto que ainda é a maior fonte de energia limitada do mundo. Do ponto de vista da economia, se trata, portanto, de diversificar a matriz e apontar para um futuro no qual os combustíveis fósseis não terão o mesmo protagonismo que têm agora. Posicionar os Estados Unidos como o maior aliado na exportação dessa tecnologia faz sentido. A conta fecha. Depois da questão econômica, o segundo ponto do tripé é a questão estratégica. Aí, a coisa começa a complicar. Israel é hoje a única potência nuclear do Oriente Médio. Essa posição de supremacia atômica será certamente relativizada por qualquer outro ator que atinja a mesma condição. Os israelenses suspeitam que seu maior rival, o Irã, esteja nesse caminho. Donald Trump prometeu a seus aliados israelenses, no entanto, que esse acordo atômico com os sauditas só irá adiante se ele se comprometerem a respeitar Israel. Os sauditas têm de fato uma boa relação com os israelenses, mas ainda não deram o passo decisivo de aderir aos chamados Acordos de Abraão, por meio do qual países muçulmanos, como os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein, o Marrocos e o Sudão vêm trocando o reconhecimento e o respeito à existência do Estado israelense pela normalização das relações. Trump assegura que condicionará a cooperação atômica com os sauditas à adesão a esses acordos. As primeiras notícias que chegam de Tel Aviv são de que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu vê a jogada com bons olhos. Entendidos os dois primeiros pontos do tripé —econômico e o estratégico—, resta olhar para o mais delicado dos três: a não-proliferação nuclear. O termo diz respeito ao um compromisso, hoje completamente cínico e fajuto, de evitar a todo custo que o grupo de países detentores de arsenais nucleares cresça. Só que ele vem crescendo sem parar. Além das cinco potências atômicas do pós-guerra, que hoje têm assento permanente no Conselho Segurança (Estados Unidos, França, Reino Unido, China e Rússia), um grupo de outros países conseguiu, desde então, desenvolver suas próprias bombas, como Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel. Acreditar que a Arábia Saudita de hoje não vá um dia "virar a chavinha", fazendo seu programa atômico civil passar a militar, só seria um erro de cálculo perdoável se os Estados Unidos já não tivessem passado por situação semelhante quando levaram o Átomos para Paz ao Irã. Armar aliados que, mais tarde, se tornam inimigos é o resumo da própria história da CIA. Foi assim não só no Irã, mas também no Afeganistão, onde pelo menos uma parte dos mujahedins que foram municiados pelos Estados Unidos para resistir à ocupação dos soviéticos no Afeganistão mais tarde se converteram no Talibã, grupo que deu treinamento, abrigo e proteção aos membros da Al-Qaeda que implodiram as Torres Gêmeas, no 11 de setembro de 2001. É claro que Trump garante que o acordo com os sauditas estará blindado contra qualquer risco de que seu uso civil seja convertido em militar. Mas o programa com o Irã também estava. No entanto, Estados Unidos e Israel tentam agora, assim como tentaram no fim de 2025, enterrar esse programa debaixo de bombardeios massivos. E não conseguem. Quem garante que os amigos sauditas não terão no futuro qualquer agenda própria que antagonize com norte-americanos e israelenses? Por fim, é preciso notar o efeito regional desse acordo, pois uma Arábia Saudita nuclear daria combustível para uma corrida armamentista na qual países como a Turquia, além do próprio Irã, buscariam suas próprias bombas com ainda mais afinco. Se a história ensina alguma coisa é que bombas atômicas são um problema, não uma solução; programa atômicos civis são convertidos em militares; e os amigos de hoje podem ser os inimigos de amanhã. A história é clara. Os atores é que são obtusos. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.
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