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Graça Machel critica incapacidade da SADC para lidar com crise xenófoba

Graça Machel critica incapacidade da SADC para lidar com crise xenófoba

A antiga primeira-dama moçambicana e sul-africana Graça Machel criticou hoje a incapacidade da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) para travar as causas da migração associada às atuais tensões xenófobas na África do Sul.

"Se fosse no passado, imediatamente quando estes distúrbios começaram, os chefes de Estado deviam ter-se reunido. Deviam ter começado a analisar o que é que isto quer dizer. Como é que nós devemos trabalhar juntos, como SADC", disse ativista social Graça Machel, em declarações aos jornalistas, em Maputo. "A SADC é já uma máquina que organiza reuniões, de vários ministérios, dos chefes de Estado, e fazem resoluções, talvez, quer dizer, muito baseadas mais nos interesses, até interesses económicos. Mas não analisa muito bem, quer dizer, os interesses de relações, relações entre Estados, mas entre nações. Quando eu digo nações, analisar relações das sociedades que nós somos. É por isso que acontece uma coisa dessas", acrescentou. Para Graça Machel, a SADC deve concentrar-se na criação de condições económicas que permitam fixar os cidadãos nos seus países de origem, apontando a produção alimentar como uma das áreas em que a região continua a falhar. "Eu gostaria que eles nos apresentassem agora, efetivamente, produção de comida. Por que é que nós, na SADC, com a terra, com os rios e com países que já foram exemplo de produção alimentar, por que é que nós temos fome? Por que nós estamos a importar comida na SADC?", questionou. A ativista considerou incompreensível que os países da região continuem dependentes da importação de alimentos apesar dos recursos naturais disponíveis. "Todos nós juntos podemos alimentar-nos a nós próprios e até exportarmos. Eu gostaria de ver uma proposta muito clara de produção de alimentos na SADC, na sua variedade, alimentos variados", acrescentou a também primeira ministra da Educação de Moçambique. A antiga primeira-dama moçambicana durante a presidência de Samora Machel e primeira-dama sul-africana entre 1998 e 1999, após o casamento com Nelson Mandela, relacionou igualmente a insuficiência de oportunidades económicas na região com a saída de milhares de jovens para a África do Sul, que enfrenta nova vaga de tensões xenófobas. "Por que milhares de jovens vão para a África do Sul para ir sentar e vender na estrada? Para ir abrir uma pequena coisa para trançar cabelo. Aquelas coisas que eles estão a fazer lá na África do Sul, por que não fazem aqui? Ou por que não se sentem motivados a ficar aqui a fazer?", perguntou. As declarações surgem num contexto de crescente tensão na África do Sul, onde milhares de pessoas saíram às ruas de várias cidades em 30 de junho, na sequência do aumento dos ataques xenófobos e dos protestos contra imigrantes. Os organizadores, que estabeleceram esse dia como prazo limite para os imigrantes indocumentados abandonarem a África do Sul, culpam estes migrantes pelos problemas económicos do país. A crise levou países como a Nigéria, o Zimbabué, o Maláui, o Gana, Moçambique, o Uganda e o Quénia a repatriar dezenas de milhares dos seus cidadãos residentes na África do Sul. Moçambique tem cerca de 300 mil cidadãos residentes na África do Sul e o Governo confirmou a morte de 11 moçambicanos vítimas destes ataques xenófobos. No dia 07 de julho, o porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa, anunciou que Moçambique recebeu 1.363 cidadãos repatriados da África do Sul vítimas de xenofobia, além de 6.156 malauianos que entraram no país em trânsito, afetados pela mesma violência. O Governo sul-africano tem condenado a violência, mas defende o seu direito de controlar a imigração irregular. As tensões xenófobas são um problema recorrente na África do Sul e têm resultado frequentemente em ondas de protestos violentos, sobretudo nos bairros mais vulneráveis. A pior vaga de violência de que há memória ocorreu em 2008, quando mais de 60 pessoas perderam a vida. Já os episódios mais graves dos últimos tempos tiveram lugar em 2019, com pelo menos 18 estrangeiros mortos. Leia Também: Ex-presidente moçambicano lidera missão de observação em São Tomé

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