IA no mangá? Autor de "Boa Noite Punpun" reacende debate sobre tecnologia

IA no mangá? Autor de 'Boa Noite Punpun' reacende debate sobre tecnologia
Resumo Se você curte treta, gritaria e kunai voando para todo o lado, a edição desta semana da newsletter Universo dos Animes está especial. De cara, vamos falar da confusão que gerou a declaração de Inio Asano, autor de "Boa Noite Punpun" (lançado no Brasil pela JBC), a respeito de um tema bem delicado para fãs de mangá: o uso de inteligência artificial generativa. Asano participou de um talk show chamado "Weekly Ochiai", comandado pelo artista Yoichi Ochiai, e falou sobre o processo criativo do mangaká. Ele chegou a mostrar como utiliza a Unreal Engine (plataforma de desenvolvimento de games) para ajudar em enquadramentos e poses de seus personagens de "Mujina Into the Deep", afinal ele queria mexer com ambientes em 3D e criou uma série apenas para isso. Asano recriou em 3D a cidade de "Mujina Into the Deep", e inclusive ele utiliza esses modelos nos fundos, numa mistura da câmera da Unreal Engine com modelagem no Blender. O resultado exibido no vídeo é impressionante: Asano consegue navegar por uma cidade totalmente feita em computação gráfica e bastante realista. Durante a entrevista, ele contou que ele utiliza assets pagos, ou seja, se precisa de um modelo de lixeira em 3D ele costuma comprar algo disponível na internet. Caso não exista um asset como ele quer, a equipe de Asano modela em 3D. Mas Asano decidiu comentar por que "Mujina Into the Deep" está em hiato, sem novos capítulos sendo publicados desde abril, e a confusão começou aí. O apresentador perguntou se o trabalho seria mais ágil se utilizassem inteligência artificial generativa, e Asano explicou que as editoras japonesas vetam o uso do recurso. Atualmente os mangakás não podem usar IA. Mas usar IA eleva a qualidade a um patamar superior. Então seria melhor não desenhar o mangá agora? Talvez se eles tirarem essa proibição no próximo ano, aí talvez seja melhor desenhar depois que isso acontecer. Estou esperando para ver o que acontece A declaração foi suficiente para que Asano fosse detonado pela opinião pública, tanto japonesa quanto ocidental. Acompanho outras áreas de entretenimento sem ser obras japonesas, e sempre acho muito curioso como o pessoal de anime e mangá tem muitas ressalvas com utilização de IA. Embora a questão da crise ambiental até desponte às vezes como motivo da revolta, os otakus parecem considerar o trabalho de uma IA generativa como algo "ruim", de "baixa qualidade". Além disso, os japoneses têm questões éticas muito grandes com violação de direito autoral e, principalmente, plágio. E considerando que IA é uma ferramenta que toma (muitas vezes sem permissão) os trabalhos de outros artistas para compor outra imagem, esse processo pode ser entendido também como um plágio por parte do público asiático. Embora Inio Asano não tenha detalhado exatamente como gostaria de utilizar inteligência artificial em "Mujina Into the Deep", os fãs ficaram decepcionados com sua postura. Recentemente, tivemos várias tretas envolvendo uso de IA. Foi assim quando usaram nos fundos da abertura mais recente de "Ascendance of a Bookworm", as reclamações foram tão intensas que o estúdio precisou pedir desculpas e refazer o trabalho com artistas. Sabendo que há esse pé atrás do público, faltou aí para o Asano um pouco de media training para não levantar a pauta dessa forma tão vaga. Acompanhei parte do debate na internet e vi alguns argumentos incoerentes. Há quem diga que o Asano está apenas utilizando tecnologia em sua obra, o que é algo aceitável para agilizar o processo, mas a coisa não funciona assim. Utilizar tecnologia para acelerar obra é o que ele faz utilizando a Unreal Engine para posicionar câmera e não precisar desenhar cenários realistas toda vez, e inclusive nem chega a ser uma ideia inédita (Ken Akamatsu, o ex-autor de mangá, já fazia algo parecido em "Negima"). Ele está no controle 100% criativo, determinando como os cenários e personagens devem ficar de referência e desenhando em cima disso. No caso da IA generativa, ele não teria qualquer mérito artístico por escrever um prompt e utilizar o resultado em sua obra. E pior ainda é argumentar que isso agilizaria o processo do autor, pois produzir mangá não é fábrica de pão. As editoras japonesas sempre foram exigentes com prazos, o que levou inúmeros autores ao burnout. Porém, com a IA, as editoras cientes disso vão pressionar por prazos ainda mais impossíveis. De qualquer forma, vamos continuar acompanhando esse caso, mas a batata de Inio está "Asano"... Perdão pelo trocadilho! Notícias Rapidinhas Jackie de volta Entre 3 e 25 de agosto o Rio recebe a V Mostra de Cinema China Brasil, com 14 filmes chineses (7 inéditos no Brasil). Entre eles, temos o novo longa de Jackie Chan, o "Operação Sombra". Acontecerá no Cinesystem Belas Artes, mas tem atividade em várias escolas do RJ. Os ingressos estarão disponíveis no site Ingresso.com. Hideki Tsuji O autor de mangá Hideki Tsuji, de "Souten no Ken Re:Genesis", será uma das atrações do Comic Market Brasil. O mangaká falará sobre sua obra e o processo de produzir um spin-off de uma franquia tão querida no Japão. O evento acontece nos dias 15 e 16 de agosto na FAPCOM, em São Paulo. Mais informações no site oficial. Jogos Mortais De surpresa, o filme animado "SHIBOYUGI: Jogos Mortais para Colocar Comida na Mesa - Praia Nebulosa", que continua a história do anime, chegou com dublagem na Netflix e Crunchyroll. Ele está dentro da página da série nos serviços de streaming, e já pode ser assistido agora pelos fãs ávidos por mais essa história. "Shonen Jump" vira alvo de especuladores no Japão e fãs ficam sem card de "One Piece" Está rolando um problemão com mangás físicos no Japão, pois alguns exemplares de revistas estão sendo alvo de scalpers/cambistas/especuladores que compram todos os volumes para revender depois a preços exorbitantes. Ou pior: para pegar algum brindezinho e depois descartar o mangá. Aconteceu na mais recente edição da "Shonen Jump", que teve o último capítulo de Blue Box publicado. A revista vinha com um card comemorativo de "One Piece", e aí os scalpers compraram tudo o que foi possível para tomar o mimo e depois jogaram as revistas no lixo ou pela rua. Por conta disso, teve gente que não conseguiu ler na versão física o final de "Blue Box". Kouji Miura, a artista do mangá, pediu desculpas aos fãs e orientou para que as pessoas comprassem o volume da "Jump" nas lojas oficiais da editora (provavelmente porque haveria algum controle). Vendedores de outras lojas também tentaram contornar a situação controlando a venda da revista, impedindo que comprassem mais de um volume por pessoa. Após toda a confusão, a editora Shueisha prometeu reimprimir novas edições da revista (sem o card de "One Piece", que era o alvo dos cambistas) que serão vendidas nas lojas da Jump. Decidiram também cancelar a distribuição do card da Pudding que seria enviado na próxima edição da revista V-Jump. O Japão sempre lutou contra esse tipo de golpista que tenta comprar itens japoneses para revender a preço exorbitante no resto do mundo, mas a coisa parece ter saído um pouco do controle após o caso Logan Paul. O lutador esteve em evidência nos últimos meses após comprar edições da "Shonen Jump" que continham os primeiros capítulos de "Dragon Ball" e "One Piece". A lógica seria gerar uma escassez no mercado e revender depois a peso de ouro. Esse plano de Logan não faz muito sentido aplicado à cultura editorial japonesa. Ao contrário de quadrinhos de outros países, no Japão é comum reimprimir eternamente os títulos com demanda. Fora que a proposta da "Shonen Jump" em si é ser uma leitura descartável, que os leitores lêem e depois compram o volume encadernado apenas dos mangás que gostam. Quando estive no Japão, por exemplo, encontrei sem qualquer dificuldade o primeiro volume de "Detetive Conan", publicado em meados dos anos 1990. A minha versão é uma enésima reimpressão, mas tudo isso faz com que as edições publicadas originalmente não tenham tanto apelo financeiro para colecionadores. Mas essa nova empreitada dos scalpers está causando alguns danos ao sistema dos mangás no Japão. Em primeiro lugar, fãs japoneses não estão conseguindo os brindes. Em segundo lugar, cria uma falsa sensação de demanda, e isso pode afetar a continuação ou cancelamento de títulos. Alguns mangás recentes (e pouco expressivos) da "Jump" precisaram ganhar reimpressão porque esses malucos compraram todas as unidades disponíveis. Isso passa uma mensagem errada para a editora, e ela pode manter um mangá ruim achando que o título é um sucesso de vendas. O caso inteiro é complicado e o Japão vai precisar adaptar a forma como vende seus mangás para evitar esse contratempo. Talvez seja possível controlar através de restrições de um volume por cabeça, ou então exigindo um certo tipo de cadastro, mas nem isso está impedindo a ação dos especuladores. Se quiser debater sobre esse assunto, publicamos essa treta lá no nosso Instagram e as pessoas estão palpitando nos comentários. Conteúdo otaku em UOL Lojas temáticas O Japão está cheio de lojas temáticas de séries e franquias, e aproveitei a passagem por lá para registrar minhas visitas às lojas de "Jojo's Bizarre Adventure", "Dragon Ball", "Pokémon" e muito mais. Já reserve um dia da sua viagem só para isso. Otaku é pop A Moo-chan gravou um vídeo super legal comentando sobre como a cultura otaku agora é vista como parte da cultura pop mainstream, não só algo de nicho, como antigamente. Como isso aconteceu? Isso vai continuar? Confira no vídeo da nossa diva. Festival do Japão Tradicional evento de cultura japonesa em SP, o Festival do Japão aconteceu na semana passada e a intrépida repórter Thais Hern esteve lá para mostrar o pavilhão e tentar disputar um suco de maçã com milhares de admiradores da cultura asiática. Confira! 'Star Detective Precure' substitui vazamento tradicional por arco especial Estou sempre comentando por aqui o quanto gosto da franquia de garotas mágicas "Pretty Cure"/"Precure", e como assisto às séries religiosamente enquanto tomo café da manhã aos domingos. É sempre muito gostoso acompanhar o desenvolvimento da história de cada série, mas há um problema recorrente em todos os anos: o vazamento da Cure extra da temporada. Eu explico. Sabe em "Power Rangers" quando há o grupo formado e, em algum ponto da história, surge um Ranger extra? Pois "Precure" tem isso em quase toda a temporada, com a adição de uma nova heroína. Infelizmente a Toei Animation tem o controle de uma peneira, pois é incapaz de segurar o mistério da nova guerreira e sempre acabamos descobrindo antes por conta de vazamentos de brinquedos ou coisas assim. Mas em "Star Detective Precure" a Toei decidiu fazer algo diferente. Cure Eclair, a personagem extra, já foi revelada logo no anúncio da temporada, mas a produção decidiu criar um mistério sobre a identidade secreta dela, pois havia muitas suspeitas. No decorrer dos meses fomos apresentados às candidatas Eriza Kurusu (a escritora de romances de detetive), Shiruku Ieiri (a atriz), Rei Kaneda (a representante dos alunos da escola) e Kurea Howa (a patissier), e o anime criou um arco de cinco semanas no qual ia distribuir pistas sobre quem seria a Cure Eclair, com revelação marcada para o dia 19 de julho. E foi tão divertido acompanhar isso. "Star Detective Precure" já é uma temporada muito divertida, e esse mistério engajou muito. A Toei até criou um site para que os fãs votassem em quem eles achavam que era a Cure Eclair! E o episódio do último domingo, o da revelação da identidade secreta, foi um deleite, mesmo sendo a personagem mais óbvia mesmo. Agora o anime entra em nova fase, com o time completo, e estou empolgado com as possibilidades. "Star Detective Precure", em andamento Onde assistir? Crunchyroll (legendado) Mais vídeos para assistir Nostalgia O Guto Barbosa fez um especial para falar um pouco dessa nostalgia pelos anos 2000. Se você quer entender isso (ou se viveu essa época), vale a pena conferir. Calvície acentuada Fernanda Tavassi aproveitou uma recente pesquisa dizendo que os fãs do Vegeta são pessoas melhores que os fãs do Goku para fazer um vídeo sobre o príncipe saiyajin. Animes brasileiros ganham impulso com programa de internacionalização Estamos em uma época globalizada, e não é mais só o Japão que consegue produzir animações ao estilo anime. Há estúdios brasileiros que também estão se arriscando nesse mercado e, agora, temos uma produtora brasileira selecionada para um programa de internacionalização voltado a empresas lideradas por mulheres. Estamos falando da Noches Produções, liderada por Mab Castro, selecionada para participar da nova edição do Elas Exportam, um programa realizado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) em parceria com a ApexBrasil (órgão que auxilia relações entre empresas brasileiras e estrangeiras). O Elas Exportam existe há algum tempo, mas agora contempla também empresas de economia criativa, como tecnologia, games e... animes. O objetivo da aposta é levar propriedades intelectuais brasileiras para o mundo inteiro, e a escolha do estilo de anime faz todo o sentido, segundo Mag Castro. "O anime possui um poder de engajamento e de geração de soft power incomparável no cenário global", explica. Só que a ideia não é fazer um monte de isekai genérico em mundo de fantasia, ou romance escolar japonês, mas sim retratar o Brasil. "O estúdio acredita que histórias profundamente brasileiras, quando desenvolvidas dentro desse modo de produção rigoroso, têm toda a capacidade de viajar o mundo, dialogar com diversas culturas e engajar multidões", contou Mab. Será o primeiro passo para termos animes de sucesso produzidos no Brasil? O cenário até o momento parece desafiador, mas promissor. Até a próxima semana, otakus! Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.
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