Milei é como Nero, gosta de incendiar relações, diz analista argentino

Milei é como Nero, gosta de incendiar relações, diz analista argentino
Milei é como Nero, gosta de incendiar relações, diz analista argentino Resumo A crise bilateral entre Brasil e Argentina, desencadeada pelos ataques do presidente argentino, Javier Milei, ao presidente Lula e ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, na Convenção Nacional do Partido Liberal (PL), deverá ser "um caso de estudo futuro do que se pode chamar de antidiplomacia", na avaliação de Juan Tokatlian, professor emérito da Universidade Torcuato Di Tella, na Argentina, e membro do Conversatório Latino-Americano (grupo formado por acadêmicos de universidades do Brasil, Argentina, Colômbia e México). Milei, na opinião do acadêmico argentino que acompanha de perto a relação com o Brasil, adotou uma atitude que vai na contramão não apenas da boa e correta diplomacia, mas também do histórico da relação entre dois países que já foram parceiros estratégicos na região. Tokatlian comparou Milei ao imperador romano Nero (38 d.C.-68 d.C.), dizendo que o argentino gosta de "incendiar relações" com diferentes países. Leia a entrevista na íntegra: UOL: Várias análises e meios de comunicação da região qualificam esse episódio entre Milei e Lula como a pior crise diplomática entre Argentina e Brasil em pelo menos meio século. É correto dizer isso? Por quê? Juan Tokatlian: Ocorreram diferenças importantes nas relações bilaterais com governos militares e regimes democráticos. Em 2024, houve um incidente quando, em uma visita não oficial ao Brasil, Milei chamou Lula de "comunista e corrupto". Isso levou o governo brasileiro a chamar seu embaixador em Buenos Aires [Julio Bitelli] para consultas. Mas, desta vez, a envergadura das falas de Milei sobre autoridades do Executivo e do Judiciário brasileiros, as agressões ao Partido dos Trabalhadores, os insultos desmedidos em um país que está às portas de uma eleição presidencial, constituem um caso à parte. Não foi mais um ataque: Milei —de maneira racional, não irracional— delirou com um discurso próprio de um patife. Isso num país com o qual, desde 1983, a Argentina encerrou todo tipo de hipótese de conflito; com o qual mantém um mecanismo único no mundo —e validado pela Organização Internacional de Energia Atômica— em matéria nuclear; com quem se pensou e fundou o Mercosul; e que é o principal parceiro da Argentina há lustros. O Brasil, seu governo e sua sociedade não fizeram nada para merecer semelhante arrebato de grosserias. O Brasil —Chile, Equador e Uruguai também— foi amicus curiae no caso da estatal de petróleo YPF, que recentemente teve uma sentença favorável à Argentina. Na Corporação Andina de Fomento (CAF) e no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Brasil procurou facilitar os créditos que foram concedidos ao governo para paliar [remediar] a falta de dólares para o pagamento da dívida. O Brasil se encarregou da embaixada da Argentina na Venezuela perante a crescente tensão entre Buenos Aires e Caracas em 2024. O Brasil manteve firme seu apoio à Argentina na questão das Ilhas Malvinas. O Brasil nunca objetou a entrada da Argentina nos Brics; fato que não ocorreu porque Milei rejeitou se unir ao grupo. Não há absolutamente nada que o Brasil tenha feito contra o governo ou a sociedade argentinos. Este será um caso de estudo futuro do que se pode chamar de antidiplomacia. Como se explica o nível de confrontação de Milei em solo estrangeiro, durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro? Milei presume, erroneamente, que é um suposto líder da ultradireita na região: quem lidera uma internacional reacionária na América Latina é Trump. No mais recente ranking de presidentes da região, feito pela CB Global Data, Milei se posicionou em 14o lugar. Os presidentes de ultradireita que chegaram ao poder na região não pregam a "liderança" argentina; cada um sonha em ser o mais apreciado e consentido (em muitos casos, com migalhas) por Trump. A Argentina de Milei leva mais de dois anos fazendo gestos de alinhamento com os Estados Unidos e de distanciamento eloquente em relação à China. Em meio a novas tarifas ao Brasil, a tensões crescentes entre Brasília e Washington pelo envolvimento da administração Trump no processo eleitoral brasileiro e ante as posturas mais autônomas de Lula na frente externa, Milei se insere nesse contexto como aliado da Casa Branca. Em inglês, há uma boa expressão que sintetiza esse tipo de comportamento: ser "proxy" do poderoso. E também Milei faz e diz o que faz e diz porque a chancelaria argentina foi desmontada no sentido do trabalho profissional de tantos e bons embaixadores de carreira, que hoje perderam a capacidade de orientar melhor o Executivo. Não se deve esquecer que Milei disse o que disse com o chanceler [Pablo] Quirno presente: isso não é um gesto menor, suponho, aos olhos e ouvidos do Itamaraty. Que cenário o senhor projeta para o futuro da relação? Não creio que nem Lula, em nível pessoal, nem o Brasil, em termos institucionais, busque escalar uma situação delicada. Em todo caso, o governo argentino possivelmente acredite que pode tirar algum ganho doméstico de curtíssimo prazo. Em matéria antidiplomática, Milei é uma espécie de Nero que parece desfrutar de incendiar relações com diferentes países. Dinamitar a relação bilateral também é parte de sua determinação de não proteger a indústria nacional: não se deve esquecer que o Brasil é o principal comprador de manufaturas argentinas. Finalmente, caso Flávio Bolsonaro vença a eleição, o governo argentino e seus principais setores de apoio não conseguem compreender que o suposto "brilho" de Milei irá se apagando, já que o Brasil é mais relevante do que a Argentina para os Estados Unidos, a Europa, a Rússia, a China, os Brics e o Sul Global. Um único dado que não é anedótico: segundo o relatório da OCDE de finais de 2025, naquele ano, os investimentos diretos no Brasil foram de US$ 76,877 bilhões, enquanto os na Argentina foram de US$ 3,134 bilhões. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.
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