Na Flip, cuidado com o flop: redes sociais fazem confudir FOMO com fome

Bugni: Na Flip, cuidado com o flop, porque as redes fazem confundir FOMO com fome
Na Flip, cuidado com o flop: redes sociais fazem confudir FOMO com fome Resumo Estou rolando o feed do Instagram. Dormi apenas 4h na noite anterior porque cheguei de madrugada de uma festa na praia em Paraty e desde que me levantei enfrentei horas de estrada para atravessar o estado e voltar para casa. Estou olhando os vídeos nos stories de quem ainda estava na Flip e computando silenciosamente o que estava perdendo. Um pôr do sol, uma tarde na praia, um bar, um drink, uma entrevista coletiva, um cortejo, alguns paineis, uma paisagem bucólica, o reels da festa do Zeca Camargo em que meu irmão aparece dançando ao lado dos pick ups. Vou ficando agoniada. Eu perdi tudo da Flip?, eu penso, como se não tivesse passado os últimos quatro dias entre as construções de 1700, rebolando (e tropeçando) para fazer tudo que era possível e reportar da melhor maneira o que via lá. Como jornalista, não adianta viver, precisa contar para leitores o que viveu para ter dinheiro para viver outras coisas também. Gosto da expressão FOMO, sigla em inglês usada para designar o medo de perder algo. O trocadilho não proposital acaba sendo a palavra fome, em português. Como um saco sem fundo, mesmo depois de jantar, nunca estamos satisfeitos. Depois de 96 horas andando pelo calçamento irregular do centro histórico de uma cidade tombada e encontrando amigos e falando de ideias e coordenando equipe e sentando quando as pernas falham para comer alguma coisa e molhar as palavras, cheguei em casa com a sensação de que não havia ido. Na lógica insana de ir, documentar a ida e falar que foi para os outros, a gente perde a referência de digerir. Por isso a sensação de fome eterna. Se não digeri, nem parece que comi. Se não comi, sempre vou precisar de mais. Mas não cabe mais nada, eu vi muita coisa! Então por que raios estou olhando o que não vi nos stories da turma? Eu estava ainda absorta com os carrosseis de alegrias alheias e minha incapacidade de ter usufruído do evento quando veio minha mãe, por Whatasapp, inspirada pela coluna de Alcoforado, no Globo. Sem que houvéssemos conversado sobre, ela também falava do furor de ir à Flip que todos, inclusive ela, sentiram. FOMO FOMO FOMO. "As pessoas acham que precisam ir à Flip porque todos vão. Mas se for só por isso, a visita vai ser um grande flop. A gente precisa se aprofundar nas leituras e temos o ano todo para isso", dizia dona Neise. Fiquei ali de olhos arregalados. Em vez de entender o que ela estava falando, pensei que, além de não ter aproveitado (devia ter ido na festa do Zeca?), senti que não tinha lido direito. Enchi imediatamente o carrinho da Amazon com os títulos mais vendidos da festa, ficou caro, desisti. Parecia que era tudo muita fome. Comi (de verdade) uma torta de frango com uma salada quieta na cozinha. Paraty continua fotogênica, a comida tailandesa ali do lado da praça vale o quanto custa (e custa), não tenho foto em grupo com meus grandes amigos, tudo foi um grande tropeço, mas não tem possibilidade de computar nenhuma vivência se não houver o respiro. O respiro para limpar o excesso e fazer algo com o que se tem. A metáfora me lembrou o painel de Bob Wolfenson sobre a mostra Sub (emersos), que virou livro recentemente. Após uma enchente em seu estúdio que destruiu muitas de suas ampliações mais famosas, ele percebeu que após lavar a lama, tinha um outro produto em mãos. E virou exposição de fotos enrugadas que ainda estão sob efeito da sujeira, em constante alteração. Tirar a lama e ver beleza no que sobrou, alterado por qualquer que seja a avalanche. Que metáfora bonita. Entre as intensas atividades na Flip, mediei para a revista Velvet um painel sobre como o impresso pode ser uma poltroninha confortável para os pinotes que meu cérebro tem dado ao passar tanto tempo na internet. Óbvio, o digital é magia e, além de ser impossível ficar sem, eu nem quero largar do meu celularzinho incrível que me mantém conectada com o mundo. Mas escolher pausar para deixar as ideias decantarem (tirar a lama e olhar) pode ser um tipo de sobrevivência para não reclamar de fome com a barriga cheia. Que isso, também ensinou minha mãe, é falta de educação. E sabe o que dá aquela sensação de saciedade para cérebros promíscuos que aceitam todo e qualquer tipo de informação? Um livro na mão e silêncio. Parece que temos o ano todo para dar um jeito nisso. Você pode discordar de mim no Instagram. Veja também Deixe seu comentário O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.
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