O boom do litoral norte catarinense: como Balneário Camboriú, Itajaí e Camboriú viraram o novo eixo do futebol de SC

Image by Michal Jarmoluk from Pixabay Barra campeão catarinense e algoz de Série B na Copa do Brasil, o novo Gigantão das Avenidas do Marcílio Dias e o Camboriú de volta ao cenário nacional. Entenda o boom. Em menos de doze meses, um raio de vinte quilômetros na foz do Itajaí produziu um campeão estadual [...]
Image by Michal Jarmoluk from Pixabay Barra campeão catarinense e algoz de Série B na Copa do Brasil, o novo Gigantão das Avenidas do Marcílio Dias e o Camboriú de volta ao cenário nacional. Entenda o boom. Em menos de doze meses, um raio de vinte quilômetros na foz do Itajaí produziu um campeão estadual inédito, uma campanha histórica na Copa do Brasil, o projeto arquitetônico do estádio mais antigo em uso no futebol catarinense e o retorno de um clube ao calendário nacional. Nenhuma dessas histórias envolve Florianópolis, Joinville ou Chapecó. Todas envolvem Balneário Camboriú, Itajaí e Camboriú, três municípios vizinhos que hoje concentram o movimento mais interessante do futebol de Santa Catarina. Conhecer esse cenário ajuda não só a entender melhor o futebol local, mas também a analisar o momento dos clubes com mais critério antes de fazer apostas usando uma plataforma de 1 real . O Pescador que engoliu o estadual O Barra Futebol Clube foi fundado em 2013 e é um dos clubes mais jovens da elite catarinense. Conhecido como Pescador, com sede em Balneário Camboriú, subiu degrau por degrau: conquistou a Série C estadual em 2015 e a Série B estadual em 2021 , ambas de forma invicta. O salto veio nos últimos meses. Em 2025, o Barra foi campeão do Campeonato Brasileiro da Série D , batendo o Santa Cruz na decisão e garantindo o acesso inédito à Série C. Em março de 2026, completou a dobradinha: venceu a Chapecoense por 3 a 1 na Arena Barra, no dia 1o de março, e segurou a derrota por 1 a 0 na Arena Condá no dia 8, no jogo de volta, para levantar o primeiro título de Campeonato Catarinense de sua história . Foi o primeiro campeão inédito do estadual em 34 anos , desde o Brusque em 1992. E o adversário derrotado na final disputa a Série A do Brasileirão em 2026. Na Copa do Brasil, o roteiro se repetiu. Estreante na competição, o time comandado por Eduardo Souza eliminou o América-MG , da Série B, e o Volta Redonda , e se tornou o único clube novato a alcançar a quinta fase do torneio. Ali a caminhada parou: o Corinthians venceu por 1 a 0 na ida, na Ressacada, em 21 de abril, com gol de Jesse Lingard, e repetiu o placar em 14 de maio na Neo Química Arena, com gol de Yuri Alberto diante de 32.371 pagantes e renda de R$ 2.004.914,53 . A classificação valeria cerca de R$ 6 milhões em premiação da CBF. O Barra saiu sem o dinheiro, mas com vaga assegurada na Copa do Brasil de 2027. O dinheiro alemão por trás do Pescador A ascensão não é espontânea. O Barra não é uma SAF: opera como sociedade limitada, controlada pela Braho Administração de Bens , empresa ligada ao grupo alemão Hobra , do bilionário Dietmar Hopp , cofundador da SAP e figura central na transformação do Hoffenheim na Bundesliga. A agência Rogon , de Roger Wittman, que gerencia carreiras como as de Roberto Firmino e Joelinton, também está no ecossistema. O clube mantém intercâmbio com o próprio Hoffenheim e com o Académico de Viseu, da segunda divisão portuguesa. O investimento estimado é de R$ 80 milhões e está concentrado em tijolo e formação, não em folha salarial. O complexo do clube fica em Itajaí, no bairro Canhanduba, às margens da BR-101, em um terreno de 325 mil metros quadrados . Inclui um centro de treinamento inaugurado em 2024 com capacidade para 120 atletas , quatro campos, academia e centro de ensino, além da Arena Barra , aberta em 2025, com cerca de 5 mil lugares . O clube tem certificado de clube formador da CBF e cerca de 30% do elenco principal vem das categorias de base. O objetivo declarado pelo presidente Bene Sobrinho é a autossustentabilidade a partir de 2030 , com receita vinda da revelação e da venda de atletas, preferencialmente para Portugal ou para a Alemanha. É esse o fluxo real de jogadores no litoral norte catarinense hoje: de Balneário Camboriú para a Europa, dentro de uma rede multiclubes. A base de sócios ainda é modesta e revela a geografia do projeto: dos cerca de 2 mil sócios , 800 são de Balneário Camboriú, 400 de Camboriú e quase 400 de Itajaí. Itajaí e o dilema do Gigantão das Avenidas Enquanto o Barra constrói do zero, o vizinho lida com o peso da história. O Estádio Dr. Hercílio Luz , o Gigantão das Avenidas, casa do Clube Náutico Marcílio Dias , foi inaugurado em 2 de outubro de 1921 e é o estádio mais antigo em uso no futebol profissional de Santa Catarina. Fica no centro de Itajaí, entre as avenidas Sete de Setembro e Marcos Konder, e comporta hoje cerca de 6 mil torcedores . A modernização é discutida há anos e já passou por versões bem diferentes. Em 2024, o clube apresentou um projeto de ampliação para 8.537 lugares combinado com hotel e edifício multiuso, orçado em R$ 500 milhões , sendo R$ 200 milhões apenas para o estádio. Em janeiro de 2025, o governador Jorginho Mello autorizou o município a firmar parcerias público-privadas para viabilizar a obra. Também esteve na mesa a hipótese de transferir o estádio para outro bairro, descartada. O que o novo projeto promete Em 30 de junho de 2026 , no auditório do Centreventos de Itajaí, foi apresentado o projeto arquitetônico definitivo. Encomendado pelo Instituto Mais Itajaí e assinado pelo escritório Fernandes Arquitetos Associados , do arquiteto Daniel Fernandes, o projeto foi doado ao Município de Itajaí, que assume a licitação e a execução da obra. Os números: 12,8 mil lugares sentados e cerca de 17 mil metros quadrados de área construída na primeira etapa, mais que o dobro da capacidade atual, com ampliação prevista para aproximadamente 18 mil lugares em uma segunda fase. O entorno ganha um boulevard com lojas, bares e restaurantes, e o desenho contempla eficiência hídrica e energética. O presidente do Marcílio Dias, Tarcísio Guedin , fala em cerca de 18 meses de obra e não esconde a ambição de que a nova casa sustente uma tentativa de acesso a divisões superiores. O custo, porém, ainda não foi divulgado: depende da conclusão dos estudos técnicos. O prefeito Robison Coelho garantiu publicamente que a arena sairá do papel. Camboriú: o clube que recebe, não que vende O terceiro vértice do triângulo é o Camboriú Futebol Clube , o Tricolor da Baixada, fundado em 2003, hoje estruturado como SAF e mandante no Estádio Roberto Santos Garcia, o Robertão. Em 2026, o Camboriú fez a melhor temporada em anos: eliminou o Avaí nas quartas de final do Catarinense, caiu na semifinal justamente para o Barra, que empatou a ida e venceu a volta marcando três gols, e perdeu a final da Taça Acesc para o Criciúma nos pênaltis. O prêmio de consolação foi grande: classificação para a Série D de 2027 , quatro anos depois da última participação no cenário nacional. Vale corrigir uma leitura recorrente sobre o clube. O Camboriú não tem, até aqui, um histórico verificado de vendas para a Série A do Brasileirão. O movimento documentado na janela de 2026 é o inverso: o São Paulo emprestou o atacante Matheus Belém ao Camboriú . O papel do Tricolor na cadeia regional, por ora, é o de destino de atletas cedidos por clubes maiores e de plataforma de recuperação de carreiras, não o de exportador. Um cluster de futebol na foz do Itajaí Somados, os três clubes desenham algo que Santa Catarina não tinha: uma concentração geográfica de projetos com lógicas complementares. O Barra opera como centro de formação financiado por capital alemão, com estádio e CT próprios erguidos em Itajaí. O Marcílio Dias aposta na monetização de um patrimônio centenário no coração da cidade mais portuária do estado. O Camboriú se reposiciona como SAF e volta ao calendário nacional. Enquanto isso, a antiga hierarquia patina. Figueirense e Joinville foram rebaixados no estadual, o Avaí atravessa dificuldades financeiras e a Chapecoense subiu à Série A cumprindo recuperação judicial. O eixo se deslocou, e não por acaso: Balneário Camboriú e Itapema lideram o ranking nacional do metro quadrado mais caro, e é dessa economia que sai boa parte do dinheiro novo em campo. A pergunta que fica é se o modelo aguenta o teste da escala. O Barra precisa comprovar que consegue vender atletas na velocidade que o plano de 2030 exige. O Marcílio Dias precisa transformar um projeto bonito em licitação, orçamento e obra. O Camboriú precisa sustentar a SAF sem depender de empréstimos alheios. E você, aposta que o litoral norte catarinense terá um clube na Série B do Brasileirão antes de 2030?
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