O vento que desperdiçamos

O Rio Grande do Norte voltou a liderar um ranking que ninguém gostaria de ocupar. Somos o estado mais atingido pelos cortes de geração renovável, o chamado curtailment. É um paradoxo: justamente quem acreditou cedo na energia eólica, criou ambiente favorável aos investimentos desde 2002 e ajudou o Brasil a se tornar potência em renováveis [...] O post O vento que desperdiçamos apareceu primeiro em Tribuna do Norte .
O vento que desperdiçamos O Rio Grande do Norte voltou a liderar um ranking que ninguém gostaria de ocupar. Somos o estado mais atingido pelos cortes de geração renovável, o chamado curtailment. É um paradoxo: justamente quem acreditou cedo na energia eólica, criou ambiente favorável aos investimentos desde 2002 e ajudou o Brasil a se tornar potência em renováveis tornou-se o maior prejudicado pelo próprio sucesso. Curtailment ocorre quando uma usina eólica ou solar está apta a gerar, há vento ou sol disponíveis, mas o Operador Nacional do Sistema determina a redução ou interrupção da produção porque a rede não consegue transportar toda a energia ou porque a operação exige restrições. Desperdiça-se energia limpa não por falta de qualidade, mas por deficiência de infraestrutura, planejamento e gestão. O RN atraiu bilhões, estruturou uma cadeia produtiva, gerou empregos e levou desenvolvimento ao interior. O problema é que a transmissão não acompanhou a geração. Um parque pode ficar pronto em dois anos; uma linha de transmissão, em cinco ou seis. O descompasso chegou à conta: projetos adiados, investimentos suspensos, fabricantes reduzindo produção, fornecedores perdendo contratos e comunidades deixando de receber receitas. Nesta semana, o Ministério de Minas e Energia publicou a Portaria no 140/2026, regulamentando a compensação para parte dos cortes ocorridos entre setembro de 2023 e novembro de 2025. O reconhecimento do direito é um avanço, mas chega depois de quase três anos, quando prejuízos bilionários já se acumulavam. A medida olha para trás, exige adesão a termo com renúncia a ações judiciais e não responde ao essencial: como impedir que os mesmos cortes continuem? Também permanecem ausentes as soluções estruturais. O Brasil demora a regulamentar baterias, mercados de flexibilidade, agregadores e usinas virtuais, enquanto adia políticas capazes de transformar o excesso de energia em oportunidade. Em vez de apenas pedir novas linhas para exportar eletricidade, precisamos construir uma estratégia regional para consumir mais da energia que produzimos. O Nordeste Setentrional reúne vento, sol, portos e posição geográfica privilegiada. Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Paraíba e Pernambuco deveriam atuar em conjunto para atrair datacenters, plantas de hidrogênio verde e derivados, centros de inteligência artificial e indústrias de cimento, aço, fertilizantes e minerais críticos. Todos buscam o que temos em abundância: eletricidade renovável, competitiva e de baixa emissão. O RN não pode aceitar ser apenas fornecedor de energia barata para outras regiões enquanto suporta os custos do desperdício. O prêmio por termos feito o dever de casa deve ser liderar um modelo no qual a energia renovável se transforme aqui em emprego, tecnologia, indústria e prosperidade. Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.
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